20.10.04

a vida em tons vermelhos carregada por raios verdes

É extraordinário que os homens vivam fingindo que são gente, quando na realidade são animais. A falta de consciência da essência dos animais que são – os homens –, que como um vírus os desvia, apavora e destrói é a causa formal de toda a incoerência que existe no mundo. Infelizmente, são os homens os animais ignorantes; os únicos ignorantes. Aos outros falta-lhes a capacidade de raciocínio.

E neste mundo de incoerência, existem alguns que crêem no futuro; num futuro sem morte – sem fim –, a vida perpétua e um futuro sem muitas outras banalidades que fazem parte do conjunto das banalidades que passam pela cabeça dos homens – ignorantes. Eu não creio em nada, sou um seguidor dos homens. Tento passar por animal sem cabeça, sem coração. Encontramo-nos todos presos ao esboço da vida, somos todos incoerentes e vivemos a fábula com gritos de socorro, arrependimento e perdão, raramente acudidos, pois que cá cada um sabe de si, quem não sabe é doido, quem não souber; o tempo virá...

Eu detesto ser objecto, e sou objecto porque fazem de mim objecto; porque sou homem, porque sou pedra, por consequência objecto acaba por ser o resumo da minha pessoa, da minha existência. Sinto-me preso, não tenho liberdade, e tudo isso provavelmente por não ser animal. Sou uma gente. Não há escape. A existir escape, o escape é a loucura. Mas acho que a loucura não é opção. Mas também a vida não é opção. Os loucos que existem, não sei se me devem servir de exemplo. Não sei de que é feita a loucura deles. Não sei a causa nem o sentido. Não posso mais, que imaginar a loucura deles, e ignoro a delícia de tal estado.

Por enquanto, não sou louco. De qualquer modo não me considero são nem satisfeito, sou apenas um homem que se quer sem cabeça e sem coração. Mas a sorte é rara na vida. Não falo aqui de utopias como a felicidade e outras que não sinto pela falta de objectividade das mesmas. Mas neste poço não existe perdão, não existem desculpas, menos ainda sentimentos. Existem os mais fortes, os mais fracos, os ignorados e os sem sentido. Existem os sorrisos falsos, como as leis que privilegiam uma minoria. Não me sinto parte de uns nem de outros; nem dos grandes nem dos pequenos. Não me sinto apto à caça, provavelmente vivo já à mesa da grande família. É bom que a minha carne esteja envenenada, apodrecida e que morram os que se alimentarem do meu corpo.

Que a loucura seja devidamente estudada pelos sãos e que os resultados do estudo sejam claros e exactos. Que não custe caro a opção de ser louco, que haja a lei que proteja os loucos e que lhes dê liberdade para viverem como loucos, de preferência num mundo oculto, não tanto físico, muito mais abstracto. Que lhes sejam concedidos não empréstimos nem créditos, mas subsídios. Subsídios para que eles executem as suas loucuras de forma eficiente e inteligente. Que o resultado da experiência seja colocado à disposição de quem se sinta interessado à experiência, mas não sem um custo, e que custo; que o custo seja a vida de todos aqueles que se considerem sãos e convencidos a estarem aptos ao exemplo. À experiência daqueles, os loucos.



por Willie Mays

5 Comments:

At 6:26 PM, Blogger Horácio said...

Não podia deixar passar este último texto do Willie sem o comentar. Ele é de uma excelência rara: uma verdadeira pérola. A um grande escritor não basta dizer parabéns, não basta felicitá-lo e dizer: continua. A um grande escritor dizemos: obrigado.

Horácio

 
At 7:10 PM, Anonymous Anonymous said...

Concordo plenamente com o Horacio!
Muito Bom Willie!
David
Oslo,Norway

 
At 9:46 AM, Blogger fbonito said...

simplesmente ARREBATADOR !!!

 
At 9:56 AM, Blogger fbonito said...

Há pessoas que simplesmente não param de nos surpreender pela sua capacidade objectiva e descomplexada de olhar o mundo. Willie; para mim, tú és um deles.
Este é um texto na linha daqueles que simplesmente me ARREBATAM !!!

PARABÉNS, OBRIGADO, CONTINUA, FORÇA....enfim; todas as palavras de insentivo deverão ser poucas para que nem sequer conjectures a hipótese - que quero remota - de parares de escrever para ti e para nós.

Fernando

 
At 10:35 AM, Blogger eliasisa said...

Willie
Após ter me deliciado com as tuas surpreendentes palavras, deparei me com uma incógnita que também é tua: já estás sentado na tua cadeira no mundo dos loucos ou ainda esperas a free pass? penso que a 1ª hipotese é a mais viável, embora ainda te estejas a tentar fugir das "gentes" que te interrompem constantemente a pedir te para te fazerem companhia. Podes me arranjar uma "cunha" para lá entrar? Beijos

 

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