25.11.04

HOMENAGEM A TODOS OS BÊBADOS E EQUILIBRISTAS


João Bosco e Aldir Blanc recebem Prêmio Shell de Música em festa releta de convidados no palco

Leonardo Lichote - Globo Online: http://oglobo.globo.com/online/cultura/default.asp

RIO - Mantendo a coerência, Aldir Blanc foi genial com as palavras e profundamente sacana na cerimônia de entrega do Prêmio Shell de Música 2004 a ele e João Bosco, realizada nesta terça-feira no Teatro Carlos Gomes:

- Queria agradecer a Shell pelo prêmio. Mas temos interesses em barris diferentes - disse.

Aplausos e Blanc fez uma pausa antes de fechar a idéia:

- A globalização existe desde o coquetel molotov.

A parceria Bosco/Blanc estava resumida ali, naquela brincadeira: a malícia que aparece no violão de um e na poesia do outro, a imagem do coquetel molotov (uma metáfora para a obra nada conformista da dupla), a boemia e a nova ordem mundial abraçadas. A piada do poeta tornava mais claros os motivos pelos quais aqueles dois estavam sendo premiados naquela noite.

Não que precisasse. Depois do desfile das canções assinadas pela dupla ou por cada um com outros parceiros, os tais motivos já eram mais que óbvios. Interpretando as músicas, além de Bosco e Blanc, umas lista de convidados que, por amizade e afinidades musicais, estão intimamente ligados aos dois: Leila Pinheiro, Guinga, Fátima Guedes, Moacyr Luz, Simone e Rildo Hora.

No início da cerimônia, Elis Regina - grande incentivadora da dupla no começo da carreira - foi lembrada no telão, cantando trechos de músicas deles. Depois de receberem o prêmio das mãos de Aldo Castelli, presidente da Shell Brasil, Bosco e Blanc abriram o show, cantando juntos "Mestre sala dos mares". A partir dali, Bosco assumia o comando, com Blanc se instalando com seu tamborim numa mesa de botequim localizada no canto do palco - o que, no fim da noite, rendeu mais uma piada do letrista:

- Diante do que João trabalhou, eu merecer dividir o prêmio com ele...

Bosco realmente trabalhou. Seu violão e seu canto - ambos maravilhosos, essencialmente negros e mineiros - passearam pelo Brasil suburbano e sofisticado que a dupla identificou e, de certa forma, ajudou a construir em sua obra: a mulher que muda de estação no meio do jogo do Flamengo, para o desespero do marido ("Incompatibilidade de gênios"); a saga do menino que virou "imperador dos morros" em "Tiro de misericórdia"; a colagem de "jogo de búzios"/"giro da pomba"/"gol do seu time"/"roda de samba" de "Escadas da Penha"; e o poderoso e sintético manifesto sobre a fome (e a raiva que ela causa), "Ronco da cuíca".

A excelente banda dava à malícia das canções uma roupa de gala, adequada a ocasião. Se soava perfeita e à vontade em canções mais delicadas como "Malabaristas do sinal vermelho" (parceria de Bosco com seu filho, Francisco Bosco) e "Desenho de giz" (de Bosco e Abel Silva), ela assumia alma de samba nos momentos em que o couro comia. O piano de Itamar Assieri incorporava um cavaquinho; o baixo de Ney Conceição, um tantan; a guitarra de Nelson Faria, a cadência do violão; e a bateria de Kiko Freitas, todo um naipe de caixas e tamborins. Os caminhos surpreendentes das baquetas faziam Blanc entortar o pescoço freqüentemente para acompanhá-los, sempre com um sorriso de aprovação.

Leila Pinheiro foi a primeira convidada a entrar no palco. Deu interpretações classudas para "Amigos novos e antigos", especialmente significativa para celebrar aquele encontro no palco, "Desenho de giz" e "Catavento e girassol", com Guinga (música dele com Blanc). Falando com a platéia, a cantora resumiu o sentimento geral naquela noite que formalizava um reencontro - Bosco e Blanc ficaram anos afastados e só se reaproximaram recentemente.

- O melhor desta festa é ver esses dois juntos - disse a cantora.

Sozinho com seu violão, Guinga cantou "Chá de panela" (outra parceria com Blanc) e ressaltou a grandiosidade e a personalidade única de sua música - certamente, o músico merece lugar na fila dos próximos premiados do Shell ( veja a lista completa dos premiados dos anos anteriores ). Fátima Guedes cantou "Saída de emergência" (Bosco, Wally Salomão e Antonio Cícero) e "Resposta ao tempo" (Blanc e Cristóvão Bastos), sublinhando com gestos os versos das canções. Moacyr Luz mostrou o novo clássico "Pra que pedir perdão?", repleta das imagens primorosas de Blanc ("Eu sou rolimã numa ladeira/ Não tenho o vício da ilusão") e o consagrado "Saudades da Guanabara" (Luz, Blanc e Paulo César Pinheiro), que cruza os bairros do Rio em instantâneos que constroem uma espécie de mapa da arquitetura poética do letrista ("Subi São Conrado até o Redentor/ Lá no morro Encantado eu pedi Piedade/ Plantei/ Ramos de Laranjeiras foi meu Juramento").

Ao lado de Bosco, Simone - "morena que canta fazendo feitiço", na apresentação do cantor - cantou "Nação" (Bosco, Blanc e Paulo Emílio) e "Tá lá o corpo estendido no chão". Rildo Hora, produtor dos primeiros discos da dupla homenageada, tocou sua gaita em "Memória da pele" (Bosco e Wally Salomão) e "Corsário".

No fim, Blanc e Bosco fizeram juntos "Linha de passe" e "Kid cavaquinho" e, com todos, a emblemática "O bêbado e a equilibrista" - celebração à esperança perfeita para encerrar a noite.

1 Comments:

At 5:15 PM, Blogger v.h.lopes said...

Oh... Quizera eu ser letrista e ou músico, com o talento e a sabeboria cevática destes já nossos a que tempos kambas. Oh... Triste sina daqueles que cultivam a fustração da caneta canjonjar nas tão desejadas palavras e os dedos apenas terem jeito para fazerem cosegas às guitarras... Resta-nos a alegria de saber que dividimos o gosto pelos "barris", que são diferentes dos da Shell, e o resto... é só equilibrio, equilibrio. Com ou sem o chapéu de côco.
Viva a A.P.A.! Viva o Bosco e o Aldir!

Ass. Major

 

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