19.11.04

"o problema dos PALOP" - Miguel Esteves Cardoso

"O problema ancestral de Portugal e das nossas relações externas é que país algum gosta tanto de nós como gostamos dele. Este facto é especialmente evidente nas ex-colónias que, regra geral, não vão muito à bola connosco, e, quando vão, dão-nos com os pés. Como é que - ao mesmo tempo - podemos manter os laços históricos, salvar a honra e não perder muito dinheiro?
Os ingleses têm a Commonwealth. E nós? Nós temos os PALOP. Os ingleses têm uma palavra bonita que exprime a ideia de riqueza comum. Nós temos os PALOP. Supostamente é a sigla de «países africanos de expressão oficial portuguesa». Distinguem-se assim mais facilmente dos PALOP (países americanos de expressão oficial portuguesa) e dos PALOP (países asiáticos de expressão oficial portuguesa). É isso que temos, sim. Os PALOP.
O que é PALOP? «PALOP» parece que faz um império a cair redondo no chão. Corresponde ao Plop! britânico. «PALOP» parece o nome de uma firma de cerração de madeira de um senhor Paulo Lopes. Não soa bem. Commonwealth podia ser a marca das peúgas fofinhas aos losangos. PALOP, em contrapartida, não chega aos calcanhares de Maconde. «Os Palop», na discordância entre o plural do artigo e a singularidade da sigla parece português africano - «É os PALOP, pá!»
Se os ingleses, os espanhóis e Franceses seguissem o nosso grande exemplo, o mundo pós-colonial poderia dividir-se em Palopes, Palóis, Palofes, e Paloés. Poderiam organizar-se torneios de futebol, com Palóis contra Palofes. Parecem nomes da malta: «Ó Palói - não queres ir a casa do Palop?» De qualquer modo, algo não corre bem na língua onde se podem compreender frases como «Se não fosse o Prec, não haveria palops». Se eu fosse moçambicano, levaria a mal que me chamassem cidadão de um palop. É um nome palerma. É um nome lorpa. «Palop» é meio palerma e meio lorpa. Ainda é pior que «província ultramarina». O pior é que o maior palop de todos, em termos de palermice, é Portugal.
O nosso governo fez bem em cortar relações com a Guiné-Bissau, um palop que está em vias de promoção a palof, já que lhes dá mais jeito exprimirem-se na língua de Proust. A República Popular da Guiné-Bissau, apesar de palop, é um país que nos é um pouco estranho. Dá a impressão que gostam pouco de nós. Se calhar têm razão, mas não faz mal. Sempre foi o drama dos portugueses gostarem mais dos estrangeiros do que os estrangeiros dos portugueses. Gostamos mais dos brasileiros do que eles de nós. Gostamos imenso dos ingleses e eles não gostam assim tanto de nós. Gostamos de muitos países que nem nos conhecem quanto mais gostar de nós. E gostamos muito da Guiné-Bissau. (Se eu fosse da Guiné-Bissau também não gostaria dos portugueses. Mas, como não sou, não gosto da Guiné-Bissau.)
No entanto, esperamos sempre que toda a gente goste imenso de nós, sem fazer nada para que gostem de nós, excepto gostar deles. Não fazemos nada para que os guineenses continuem a querer falar português, mas ficamos magoados quando eles dizem que, se calhar, dava-lhes mais jeito passar para o francês.
A tragédia dos portugueses é só esta: pensar que o coração chega. Isto sem fazer esforço - o obséquio - de tentar chegar ao coração do outro. O nosso racismo, por exemplo, pode ser o menos violento dos racismos coloniais europeus, mas não deixa de ser racismo. Nós gostamos dos pretos - como os ingleses ou franceses não gostam -, mas gostamos de cima para baixo, um bocado como um patrão de bom coração pode gostar sinceramente de um criado. Achamos que eles são preguiçosos, engraçados, diferentes. Gostamos deles assim.
Sentimo-nos superiores. E ninguém gosta que se goste assim de alguém. A tragédia é que se pode gostar assim de alguém - mas o outro, assim, não pode gostar de nós.
Para respeitarmos as nossas ex-colónias temos de fazer o favor de achá-las países estrangeiros. O facto de serem estrangeiros não impede que sejam muito amigos. Com quem é quem é que nos damos melhor? Com os italianos da Itália ou com os guineenses da Guiné-Bissau? Os amigos escolhem-se e nós temos de escolher os nossos. Porque é que havemos de ser amigos de quem não gosta de nós, só porque vivemos uns tempos com eles ou porque falamos a mesma língua? Se uma ex-colónia nos dá para trás constantemente, a atitude correcta, não-paternalista, não-complexada, não racista é dizer «Ai não gostas? Então come menos». Portugal tem irmãos a mais e amigos a menos. Os amigos escolhem-se e amizade pratica-se. Não basta amar à distância. É preciso a proximidade, a presença, a prática.
Se temos de explorar as ex-colónias, exploremo-las sem preconceitos, como os países nossos amigos e aliados nos exploram a nós. O pior é que os portugueses querem investir em Angola ou em Moçambique, não porque isso interesse como investimento, mas porque sentem que têm o dever histórico de o fazer. Do mesmo modo ficamos zangados que eles, países pobres, queiram sacar-nos tudo que puderem. Que mal é que isso tem? Se eu fosse guineense, provavelmente acharia que os portugueses tinham uma dívida histórica, em dinheiro e sangue, para comigo, e enganá-los-ia quanto pudesse.
Há uma dramática falta de normalidade. O que é normal é que dois países tentem tirar a maior vantagem possível um do outro. O que é normal é que as relações históricas entre os países se baseiem, logo à partida, em relações comerciais. Portugal, ao insistir em ter relações económicas com as ex-colónias, a todo o custo, só está a investir na desconfiança e na inimizade, porque ninguém acredita na caridade pura e simples. E, se acredita, não acredita de bom grado. A ganância portuguesa em perder dinheiro, perder tempo e dignidade parece altamente suspeita aos olhos dos palopes...
"excerto do livro "Os meus problemas" de Miguel Esteves Cardoso

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