11.5.05

"o mestre da sabedoria"

Desde a sua infância que ele se soube possuidor do Conhecimento de Deus, e mesmo quando era apenas um pequeno rapaz já muitos dos santos, bem como algumas santas mulheres, que viviam na cidade livre em que tinha nascido, ficaram siderados com a grave sabedoria das suas respostas.

E quando os seus pais lhe deram a túnica e o anel de adulto ele beijou-os e deixando-os, saiu em direcção ao mundo, pois poderia falar de Deus a esse mesmo mundo. Pois existiam nesses tempos muitas pessoas na Terra que ou não conheciam, de todo, a existência de Deus ou tinham Dele apenas um conhecimento incompleto. Ou ainda, adoravam deuses falsos que viviam em cavernas e que tomavam conta dos seus adoradores.

Ele virou a face em direcção ao sol e iniciou a sua jornada, caminhando sem sandálias, como tinha visto fazer aos santos, levando no seu cinto uma carteira de couro e uma pequena vasilha de barro, com água.

E enquanto caminhava pelas estradas, sentia-se cheio daquela alegria que vem do perfeito Conhecimento de Deus e cantava sem parar louvores ao Senhor. Algum tempo depois chegou a uma estranha terra onde existiam muitas cidades.

Passou por onze cidades. Algumas delas ficavam em vales, outras nas margens dos grandes rios e outras ainda erguiam-se sobre colinas. E em cada cidade ele encontrou um discípulo que o amou e que decidiu segui-lo. Uma multidão de outras pessoas, vindas dos lugares onde estivera, começou a segui-lo. O Conhecimento de Deus espalhou-se pela terra inteira e muitos dos pecadores se converteram, e os padres dos templos em que existiam ídolos descobriram que metade dos seus ganhos se tinha perdido, quando tocaram os seus tambores ao meio-dia, ninguém (ou quase ninguém), apareceu com pavões ou ofertas de carne como tinha sido costume naquela terra, antes da vinda dele.

Contudo, quanto mais pessoas o seguiam e quanto maior era o número dos seus discípulos, mais se agigantava nele, a sua dor. E não conseguia perceber porque era assim tão grande o seu sofrimento. Se ele falava apenas de Deus, de dentro desse preenchimento, dessa sabedoria perfeita que Ele próprio lhe tinha concedido…

Uma noite ele saiu de Arménia, a décima primeira cidade, e os seus discípulos bem como a grande multidão que o seguia, também. Ele subiu a uma montanha e sentou-se numa pedra que ali estava, com os seus discípulos à volta, enquanto a multidão se ajoelhava no vale.

Meteu a cabeça entre os braços e chorou. Disse à sua alma: “Porque estou tão cheio de dor e de medo, e porque é cada um dos meus discípulos como um inimigo que caminha à luz do meio-dia?”

E a sua alma respondeu-lhe: “Deus preencheu-te com o Seu perfeito Conhecimento e tu deste essa sabedoria a outros. Apressaste-te a dividir a pérola rara e a rasgar em pedaços a roupa perfeita, sem costuras. Aquele que dá a sabedoria rouba-se a si mesmo. É como alguém que dá o seu tesouro a um ladrão. Deus não será mais sábio que a tua arte? Que arte é a tua que entregas o segredo que Deus te confiou? Eu fui rica um dia, e tu fizeste-me pobre. Uma vez eu vi Deus e agora tu escondeste-o de mim.”
Ele começou de novo a chorar pois sabia que a sua alma estava a falar a verdade e que ele tinha dado aos outros o perfeito Conhecimento de Deus, e era como se estivesse a agarrar-se às vestes divinas e a sua fé o estivesse a abandonar devido ao número de quantos acreditavam nele.

E disse a si mesmo: “Não voltarei a falar de Deus. Aquele que espalha a sabedoria rouba-se a si mesmo.”

Após algumas horas, os seus discípulos vieram até ele e inclinando-se sobre o chão disseram: “Mestre, fala-nos de Deus, porque tu possuis a Sua perfeita sabedoria e isso não acontece com nenhum outro homem, excepto consigo.”

Então, ele respondeu-lhes, dizendo: “Eu falar-vos-ei de outras coisas que existem no céu e na terra, mas sobre Deus não vos direi nada. Nem agora, nem nunca mais vos voltarei a falar sobre Ele.”

Eles enraiveceram-se contra ele e disseram-lhe: “Trouxeste-nos através do deserto para que te pudéssemos escutar. Vais-nos mandar embora e à multidão que se formou para te seguir, com fome?”

E ele respondeu-lhes: “Eu não vos falarei de Deus.”

E a multidão começou a murmurar contra ele e a dizer-lhe: “Tu conduziste-nos até ao deserto, sem nos dares nada para comer. Fala-nos apenas de Deus e isso será suficiente.”

Mas ele não lhes respondeu nada. Porque sabia que se lhes falasse sobre Deus estaria a dispersar o seu tesouro.

Os seus discípulos afastaram-se, tristes, e a multidão regressou às suas casas. E muitos foram os que morreram no caminho.

Quando ficou sozinho, ele levantou-se e virou a face para a lua, caminhando sem falar para homem nenhum e sem fazer perguntas, durante sete luas. Quando a sétima lua minguou, ele chegou a um deserto conhecido como o Deserto do Grande Rio. E tendo encontrado uma caverna onde um dia tinha habitado um Centauro, ele tomou-a como seu lugar de residência e fez um colchão com juncos, onde se deitar. E tornou-se um eremita. E todas as horas o Eremita louvava Deus que o tinha sustentado para que conservasse alguma da Sua sabedoria e da sua maravilhosa grandeza.

Então, uma noite, enquanto o Eremita estava sentado diante da caverna em que construíra o seu local de habitação, avistou um jovem de feições perversas e belas que passava, pouco vestido e com as mãos vazias. Todas as tardes o jovem passava sem nada nas mãos e todas as manhãs voltava com elas cheias de riquezas e pérolas. Porque era um ladrão e assaltava as caravanas dos mercadores.

E o Eremita olhou para ele e apiedou-se. Mas não disse uma palavra. Porque sabia que quem diz uma palavra perde a fé.

Uma manhã em que o jovem regressava com as mãos cheias de púrpura e de pérolas, parou e franzindo o sobrolho e batendo com o pé na areia, disse para o Eremita: “Porque olhas para mim dessa maneira, sempre que passo? Que coisa é essa que vejo nos teus olhos? Nunca homem nenhum me olhou assim. E isso é uma inquietação e um problema para mim.”

E o Eremita respondeu-lhe, dizendo: “Aquilo que vês nos meus olhos é piedade. É a piedade que está a olhar para ti de dentro dos meus olhos.”

O rapaz riu-se com escárnio e gritou para o Eremita numa voz fria: “Eu tenho púrpura e pérolas nas minhas mãos, e tu não tens senão um colchão de ervas em que te deitares. Que tipo de pena podes tu sentir de mim? E porque razão tens tu essa pena?”

“Tenho pena de ti”, respondeu o Eremita. “Porque não tens o Conhecimento de Deus.”

“E esse Conhecimento de Deus é uma coisa preciosa?”, perguntou o jovem. E chegou-se à boca da caverna.

“É mais preciosa que toda a púrpura e pérolas do mundo”, respondeu-lhe o Eremita.

“E tu, tem-na?”, perguntou o jovem ladrão. E chegou-se mais a ele.

“Em tempos, de facto”, afirmou o Eremita, “Possuí um perfeito Conhecimento de Deus. Mas, na minha loucura, separei-o e dividi-o com outros. E, mesmo assim, o Conhecimento que permanece em mim continua a ser mais precioso que qualquer púrpura ou pérolas.”

Quando o jovem ladrão ouviu isso deitou fora a púrpura e as pérolas que estava a segurar nas mãos e sacando de uma espada afiada de aço curvo, disse ao Eremita: “Dá-me imediatamente esse Conhecimento de Deus que possuis ou vou despedaçar-te, com toda a certeza. Por que razão não devia matar aquele que tem um tesouro maior do que o meu?”

O Eremita abriu os braços e disse: “Não seria melhor para mim ir para os mais longínquos campos e glorificá-Lo do que viver neste mundo sem ter o Seu conhecimento? Mata-me se é este o teu desejo. Mas não vou entregar o meu conhecimento de Deus.”

E o jovem ladrão ajoelhou e suplicou-lhe e suplicou-lhe, mas o Eremita não lhe falou acerca de Deus ou entregou o seu Tesouro. O jovem levantou-se e disse: “Seja como desejas. Quanto a mim, vou até a Cidade dos Sete Pecados, que não está a mais de três dias deste lugar. Pela minha púrpura dar-me-ão prazer e pelas minhas pérolas vender-me-ão alegria.” E pegou nas pérolas e na púrpura, afastando-se rapidamente.

O Eremita chorou copiosamente e seguiu-o, suplicando. Durante três dias seguiu o jovem Ladrão pela estrada e pediu-o para voltar para trás e para não entrar na Cidade dos Sete Pecados.

De quando em quando o jovem Ladrão olhava para trás, para o Eremita e chamava-o, dizendo-lhe: “Dás-me esse Conhecimento de Deus que é mais precioso que a púrpura e as pérolas? Se me deres isso não entrarei na cidade.”

E o Eremita respondia sempre: “Dar-te-ia todas as coisas que possuo, menos essa. Isso não é legítimo para mim entregar-te.”

E ao entardecer do terceiro dia acercaram-se das grandes portas escarlates da Cidade dos Sete Pecados. E da cidade vinha o som de muitas gargalhadas.

O jovem Ladrão riu-se, em reposta, e procurou bater ao portão. Quando ele fez isto, o Eremita correu na sua direcção e agarrou-o pelas franjas da sua túnica, dizendo-lhe: “Estende as tuas mãos e coloca os teus braços em volta do meu pescoço; põe o teu ouvido perto dos meus lábios e eu dar-te-ei o que sobrou em mim do Conhecimento de Deus.” E o jovem Ladrão parou.

E quando o Eremita acabou de entregar o Conhecimento de Deus, caiu no chão e chorou. E uma grande escuridão escondeu de si a cidade e o jovem Ladrão, não voltando a vê-los.

E, enquanto ali estava sentado, a chorar, teve consciência Dele, de pé, perto de si; e O que estava perto de si tinha pés de bronze e o cabelo como pura lã. Ele levantou o Eremita e disse-lhe: “Antes deste tempo tinhas o perfeito Conhecimento de Deus. Agora, terás o perfeito Amor de Deus. Então, por que choras?” E, de seguida beijou-o.



Oscar Wilde

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