10.8.05

o boneco amarelo, na estrada de Catete, a que todos dizem herói

Vivo há três dias, há três dias que procuro por um herói neste mundo de Catete. Encontrei-o num pequeno boneco amarelo, no chão, na estrada de Catete. A estrada de Catete leva-nos à Catete, terra dos catetes. Digo “leva-nos”, pelo facto de não me encontrar em Catete, mas entre eles, os catetes. Acredito veemente que eles não sejam todos iguais, mas que de certeza possuem características muito semelhantes, que tornam-nos catetes de um ou outro modo.

Foi à primeira vista que decidi que aquele boneco seria o herói por quem eu havia três dias ansiara. Era um boneco amarelo, de cabelo raso, grisalho, meio à escovinha; de estatura razoável, estreito, magro, mas não de aspecto pálido, mesmo porque no seu aspecto físico ressaltava o porte atlético de um homem confiante e triunfante. Vestia-se de modo comum a um homem comum, com uma ínfima dissemelhança; vestia uma batina.

Sinto dó à monstruosidade que é a redução de um homem e os seus feitos a um objecto estático, a uma estátua, e não valem sequer os seus atributos; seja ela feita em mármore, vidro, plástico ou madeira, e ser adorado como se adoram os santos nas igrejas. Uma estátua é como o cadáver embalsamado de um homem, exposto na vitrina de uma casa mortuária, como que a forma mais inteligente do proprietário na atracção de clientes. De qualquer modo, é evidente que os homens que não nascem heróis – não acredito em heróis à nascença – e que se tornam postumamente heróis, possuem em vida um perfil idêntico ao daqueles que tombam na controvérsia de uma ideologia do tamanho da sua insignificância, que a história regista e apresenta nos seus sacro arquivos.

Sem refúgio a qualquer tipo de sensação de responsabilidade ao que reduziu aquele ente no objecto amarelo daquele boneco pequeno, deixei-me levar pela sua aparência e no que nele havia de insignificante, a sua insignificância, aliado ao facto de o único herói de Catete poder hoje ser visto como um objecto imaculado, erguido sobre um monte de pedra. Imortalizado da maneira mais fria. Derrubado pela angústia do destino.




por Willie Mays

1 Comments:

At 12:05 PM, Blogger fbonito said...

Já vi que este teu mui adiado "re-respirar" os ares da terra-mãe está a deixar marcas interessantes....

Gostei do texto,mas te esqueças que o "boneco marelo" é o "guia imortal" ehhehe.....

Talvez isto explique muita coisa pois, tenho para mim que ou se é gUIA ou se está mORTO...estou meio a brincar

 

Post a Comment

<< Home