23.11.04

É isto Crítica Musical???

No blogue de esquerda o Luís Rainha, “denuncia” e bem, o seguinte texto de Vanda de Sá sobre a “Piano Sonata Nº.2 ( concord mass)” de Charles Ives:

«Escrita entre 1911-1912 a “Sonata Concord” para piano é obra de peso na exigência musical, sendo que a questão se põe ao nível de um “virtuosismo” na linha de Beethoven, no que se refere a problematização da matéria musical sem concessão a limitações no quadro de uma tradição de técnica e gramática instrumental, mas sim o compromisso com a ética de criação (questão demasiado vasta e apenas enunciada). Está em causa afinal um “modernismo” (“avant ou après la lettre”) que surge não por investidura mas sim por compromisso com a liberdade e a fidelidade individual, e é certo que Beethoven se constitui como desafio estrutural.»

(Este texto abre a crítica do disco do expresso do sábado passado)

Sobre este “naco" de texto, não posso deixar de me perguntar qual a sua função? Duvido que tenha alguma.

Com este texto, a quem se queria dirigir a senhora Vanda de Sá? Ao público leigo? Aos músicos? Aos experts?

Quanto ao público leigo, não me parece, pois é suposto que, quando um crítico/divulgador de música, escreve para o público leigo, tenha algumas preocupações. No mínimo (1) situar o artista e a sua obra no contexto do espaço e tempo em que viveu;(2) fazer perceber as correntes estéticas e filosóficas dessa época (3) enquadrar a obra em causa no património do seu autor, ou seja: em que fase da sua evolução artística é que o artista em causa compôs a obra em causa. (4) finalmente explicar porque essa obra é “importante" ou" significativa”, o que tem que a distingue, quais os seus alicerces (obras de onde tenha obtido influência) e porque foi, (se é que foi) de alguma forma percursora.

Quanto a este texto ter como destinatários, músicos, também tenho sérias dúvidas. Na realidade não há aqui, garanto-vos, nem sequer um termo que seja, de exclusivo léxico musical. A análise musical começa quase sempre por ser feita sobre três planos, na medida em que seja possível isola-los: Melodia, Harmonia, Ritmo. Não há referências a essas nem a outras caracteristicas "de facto estructurais" da obra. Por exemplo convinha falar da influência da Bitonalidade e da Pantonalidade em Charles Ives (isso se o texto se dirigisse a músicos, claro)

O texto será então para experts ? Só se for para experts como Vanda de Sá.

Não há aqui nenhuma ambição comunicacional, nenhuma ambição pedagógica. São textos destes que fazem com que as pessoas, quase que intimidadas, fujam da música erudita. P. É uma pseudo crítica, para pseudo intelectuais e pseudo críticos de música.

Qualquer pessoa perceberá muito mais sobre Charles Ives e a Concord Sonata de for a uma vulgar enciclopédia. Mas perceberá mais ainda se ouvir um dedicado pianista falar sobre ela.

Há excepções, existem logicamente críticos muito bons, mas infelizmente textos como o de Vanda de Sá proliferam por aí. Essa a razão pela qual, cada vez mais, prefiro ouvir os músicos (e gente envolvida na criação musical: produtores, compositores, arranjistas) falarem de música. Com eles é mais fácil aprender.

Na grande maioria dos casos os músicos, aqueles que fazem música, são muito mais simples e didácticos ao falarem daquilo que gostam. Vibram e conseguem transmitir essa paixão.

2 Comments:

At 5:01 PM, Blogger fbonito said...

Bem visto, Sacha!!

Quando leio estas "críticas" destes "críticos" fico inanimado...não sei o que pensar.

 
At 2:32 PM, Blogger Billy Shears said...

É isso. Há críticos que escrevem de forma tão hermética que chegamos a duvidar se eles próprios percebem alguma coisa dos seus textos. Seria uma tragédia se a coisa não se parecesse mais com uma comédia.

 

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