21.6.05

a impráticavel resposta de Abu Ali Ibn Sina [a.k.a Avicena]

"Aconteça o que acontecer, nunca esqueças isto: a nossa existência decorre em poucos dias. Ela passa como o vento do deserto. Por isso, enquanto te restar um sopro de vida, há dois dias com que nunca te deverás inquietar: o dia que não veio e aquele que já passou... "


Gilbert Sinoué, Avicena ou o Caminho para Ispahan

3 Comments:

At 11:29 AM, Blogger E-clair said...

A inquietação "deve ser" a do dia de hoje? Mas o hoje não é apenas um consolo breve, dependente de ontem e na esperança-certeza de amanhã?
E esse hoje, como seria ele se eu deixasse de ter memória de todas as coisas? Ou se achasse mesmo que amanhã é uma mera possibilidade?
Talvez seja o presente a única coisa que "vale" (não no sentido de "viver o momento", claro que O vivemos sempre, seja a lembrar o ontem ou a antecipar o amanhã...) porque só assim a marca que tenho na barriga da perna direita faz "sentido": a memória da mordida do cão está cá, é sempre presente, será sempre presente enquanto cá estiver e enquanto eu dela me lembrar (conscientemente, ou não).

 
At 4:35 AM, Blogger Sacha said...

De acordo: A memória é um alicerce para percebermo-nos a nós e o que nos rodeia (pessoas e processos)

Mas é diferente ter memória de (re)viver (n)o passado. A inquietação com o que já passou, o famoso " chorar o leite derramado" " o "podia ter feito isto", "devia ter evitado aquilo".

E depois há ainda a projecção no futuro: é a antecipação do "leite que se vai derramar, se ...".

ambas as atitudes sobre o passado e presente são difíceis de evitar, não só por uma questão cultural mas sobretudo quando se é exigente consigo próprio. POr isso, escrevi no título: impráticavel.

Mas não será que parte importante do que nos faz perder a paz interior advem da nossa incapacidade de por em prática o conselho do Avicena?

 
At 2:31 PM, Blogger E-clair said...

Sem dúvida que as paralisias do arrependimento/revisão do que se fez e do medo do futuro são más mas às vezes são inevitáveis...
A minha inquietação tem mais a ver com a maneira de perceber a nossa temporalidade. Não acho que haja separação nítida entre passado, presente e futuro.
O tempo da frase de Avicena é difícil a um nível mundano mas é impraticável a um nível mais existencial porque há uma continuidade incrível na nossa vida: por mais voltas e rupturas que ela tenha, há uma ligação profunda entre passado e futuro, entre a memória e o instinto de sobrevivência. Convergem imperfeitamente num sentimento de presente que, ou é uma ilusão, ou é a única coisa que existe, embora consigamos pensar outros tempos.

 

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