16.6.05

O anticunhalismo consequente dos narcisos radio-tele-web-mediáticos

Com orgulho e um sorriso nos lábios apregoam ser o pólo contrário.

O que dizer dessa auto-definição pela antítese? Que construtores de ideias são estes que se definem pelo contra valor ? E então se não mais houver o pólo de carga contrária? Implodem ou procuram desesperadamente outra carga contra a qual se possam negativizar?

Claro que é consequente que os narcisos sejam anticomunistas e anticunhalistas. Mas, na sua vaidade, não conseguem deixar de ansiar por momentos como este para poderem regressar ao espaço mediático. Assim se explica a loquacidade incontinente.

Porque, pensadores sérios que são, aparentemente mais não fazem do que deixar esse tão precioso pensamento fluir na onda tele-mediática do momento. E, quando o que está em causa é alguém cuja figura é um verdadeiro desafio para o seu hipertrofiado ego, então não há volta a dar-lhe. Chegam mesmo a dedicar-lhe horas e horas da sua vida, não porque o admirem ou sequer respeitem, também não chegam a odiá-lo ( o que já seria qualquer coisa) , mas porque, no seu delírio megalómano, procuram o desafio que julgam ajustado ao seu intelecto. Chegam ao extremo mau-gosto de empreender exercícios psicanalíticos post-mortem em pleno horário nobre televisivo.

Sempre prefiro a posição de
Pedro Mexia quando escreve “Sempre que morre uma pessoa que manifestamente não apreciávamos (uso um enormíssimo eufemismo), o comum «descanse em paz» é o único comentário decente. Nem barbarismo nem hipocrisia.” Indo depois a sua vida, falando dos assuntos que lhe interessam, que lhe dão prazer, com os quais sonha. Os que, amargurados, já nem têm sonhos contentam-se em ser o anti-sonho.


Quando oiço o que oiço e leio o que leio, vem-me a cabeça as palavras de Lipovetsky: (…) É outra coisa que está em jogo: a possibilidade, e o desejo de expressão, seja qual for a natureza da mensagem, o direito e o prazer narcísico de o indivíduo se exprimir para nada, para si apenas mas veiculado e amplificado por um médium.

Da alto da sua cátedra, oiço-os com arrogância negarem-lhe o seu humanismo, porque, dizem, era um revolucionário. Dá-me vontade de reencontrar as palavras de Thoreau , na sua defesa de John Brown, o herói libertador de escravos:

O navio negreiro cruza o mar carregado de vítimas moribundas; em pleno oceano vem juntar-se-lhe mais carga; a guarnição, um bando de traficantes de escravos (…) relega para os porões asfixiantes quatro milhões de seres humanos, enquanto o político nos quer fazer crer que o único meio decente de libertar as vítimas é a “difusão lenta dos sentimentos de humanidade”, sem recurso à ruptura. Como se os sentimentos de humanidade alguma vez pudessem ser distribuídos comodamente, como quem rega o chão com um regador, para não levantar pó. Que é aquilo que ouço lançar pela borda à fora? São os corpos dos mortos que encontram libertação. É assim que nós difundimos a humanidade e os sentimentos de humanidade.”

Ouço-os imputarem-lhe responsabilidades mil por coisas terríveis. Até lhe vislumbram responsabilidades pela criminosa e sangrenta “descolonização” e posteriores guerras nas ex-colónias.


Como Angolano, rejeito o paternalismo. A responsabilidade do que se seguiu a libertação- e digo "libertação", ao invês de "descolonização", de forma consciente - não é de russos, nem de americanos e nem de portugueses, que já lhes basta a pesada responsabilidade na, não menos sangrenta e crimonosa, colonização. A responsabilidade é sobretudo nossa: Dos que se libertaram (os "descolonizados”, na vossa linguagem). Não queremos mais ser coitadinhos inimputáveis. E só digo “sobretudo nossa” ao invés de “totalmente” porque não quero esquecer as invasões da países vizinhos Zaíre e África do Sul.

O pior é que estas coisas que leio e ouço não resultam de falta de conhecimento. O problema é justamente o contrário: Os "detentores" do "conhecimento" e da "verdade" estão conscientes da reverencia que pulula a sua volta e não hesitam. Em alguns casos é por um mero exercício de estilo e procura de originalidade - Certamente porque desconhecem as palavras do genial músico Ornette Coleman: “não há estilos baseados na liberdade. O estilo é sempre uma prisão” mas intuem, acertadamente que “ o conceito de repetição é o estilo que mais facilmente leva ao sucesso” -.
Noutros casos trata-se da instrumentalização desse conhecimento com um objectivo já mais preocupante: anular pela confusão e pelo ruído. Eis o primeiro passo para o ambicionado revisionismo histórico.

Não me espanta que dentro de poucos anos os nossos filhos aprendam que ele é que foi o grande culpado da ditadura. Porque o ditador não tinha alternativa . O “verdadeiro” perigo era vermelho.

Em tempos de efemeridade, ninguém tem memória. Os que a têm, fazem dela propriedade e acham que todas as metamorfoses históricas são boas de se atirar para cima da mesa. Pode-se dizer o que se quiser, a verdade é relativa. Tudo é pensamento válido e portanto deve ser encorajado como exercício de liberdade de opinião.

Assim, normalizando e anulando tudo o que sobressai, talvez possamos todos viver melhor com a memória da nossa mediocridade colectiva.

Podemos igualar torturador e torturado e dizer que a justiça só não veio punir o torturador porque o torturado era de facto muito, muito feio. É tudo uma questão de perspectiva. Afinal, aquilo que se chamava de tortura, era tão-somente uma cirurgia plástica.

Prefiro ficar com Thoreau:

Ainda que não aproveis os seus métodos e os seus princípios, tereis de reconhecer-lhe a grandeza da alma. (…).
Quando um homem defronta serenamente a condenação e a vingança do género humano e, de corpo inteiro se levanta acima delas (…) ele não precisa do vosso respeito.

2 Comments:

At 7:08 PM, Blogger E-clair said...

Nada é mais manipulável e escorregadio do que a memória... se a ela juntarmos a questão da perspectiva...
O perigo: não há factos, só interpretações (Nietzsche)
O perigo: estes são os factos, e não se admitem (outras) interpretações
O perigo: o mundo és tu

 
At 2:19 AM, Anonymous Anonymous said...

Hoje, já não há camaradas


Se de um lado reinou o imenso ruído da idolatria, na forma de um palavreado que recorda um qualquer comício politico; do outro lado da barricada cacofónica, ouviu-se os sons dos coveiros que enchendo suas pás com palavras e calhaus exorcizavam os seus fantasmas atirando pedras ao cadáver.

Cunhal foi nos últimos anos um símbolo, e ao mesmo tempo um diabo, esquecido. Para uns: um diabo recalcado que agora há que exorcizar (diábolo, o que desagrega: o responsável por um "se" de uma guerra civil, por uma possível desagregação do país, que nunca existiu) . Para outros: um símbolo passado, ultrapassado, que agora desperta não como uma revitalização da crença nos ideais comunistas, mas como um vestígio do lugar vazio deixado pela ausência ou extinção dos ideais.

A prova disso é o burburinho que a sua morte gerou. Os ódios viscerais e recalcados vieram à praça pública e sem nenhum pudor ou higiene intelectual logo se ouviram alguns senhores a urrar na rádio, na televisão e nas suas pracetas virtuais. Enquanto que do outro lado, vivia-se o luto e cantava-se a hossana como se de um papa se tratasse.

A morte de Cunhal simboliza uma dupla morte: o enterrar de um ideal que já cresceu, já definhou e já morreu.

Quando a multidão grita e chora clamando palavras de ordem, esta parece desejar ressuscitar não o ideal comunista, mas a própria crença: o próprio acto de crer, de acreditar em alguma coisa. E é aí que se patenteia, que se descobre, o vazio do nosso tempo, da nossa era.

Hoje, os ideais (as ideologias) existem apenas na forma de tratados, esquecidos e amontoados pelas estantes de uma qualquer biblioteca. Ou, dão o ar da sua graça, nas redutoras definições de uma sebenta escolar que, de vez em vez, alguém consulta como que se de uma bula se tratasse: com as indicações, as contra-indicações, as posologias e as sobredosagens. Resta saber quem as escreve?

Uns, com um jeito maquiavélico, por temerem que a Fênix renasça das cinzas vão deitando sobre sepulcro, areia e tudo aquilo que tiverem à mão. Os outros vão gritando e entoando cânticos em sua homenagem, fingindo não saber e não ver que ela já jaz a uns quantos palmos abaixo do chão.

Não são apenas os ideais, os sonhos, que estão a morrer – porque esses também nascem,crescem emorrem – mas é a própria arte de sonhar. É o acreditar como acto criador de valores que está crise. E isso deve-se à descrença do homem em si e no próximo (à falta de camaradagem); e à ausência de um sentido (de um télos, de um fim) como meio, (imanência que se vai construindo) e como fim, (transcendência que se vai habitando). É por isso que hoje..., já não há camaradas.

Orfeu dos Santos

 

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