12.10.05

Hermeto na Culturgest

Suou, gritou e, provavelmente, fedeu. Sentiu sede, bebeu vinho e então, tocando, (en)cantou(-nos) mais um pouco.

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Impossível perceber a criação misteriosa que é a sua alma. Mas a sua música é tão densamente pura como qualquer coisa que nasça da terra ou que batendo asas, paire no céu. Ou então, como uma rede onde se pode dormir, amar e sonhar e acordar bem tonificado para a jornada quotidiana.

Universal. Para ele, como dizia Guinga, tudo é coisa musical: trompete, panela, sintetizador ou o guincho da boneca de borracha. Música que é transparente como a água, fascinante como a lua e emergente como a vida.

Ninguém conseguiu resistir. Ali, na Cultugest, o que se passou foi muito mais que um concerto. Foi um convite irrecusável a viajar pelas origens do nosso fascínio pelo som. E não será esse fascínio muito mais ancestral, primitivo e essencial que o do fogo?

Em duas horas atravessamos várias épocas históricas, várias culturas, várias paisagens. Tudo misturado em doses indecifráveis que por alguma razão parecem tão lógicas, como se nunca tivesse havido separação, como se tudo fosse uma contínua espiral, como se fosse a coisa mais óbvia, mais natural.

A sua música, muitas vezes, sem uma absoluta separação entre composição e improvisação, contém sofisticadas harmonias, mas estas apenas são dissonantes pela mesma razão que os rios têm afluentes, cascatas e trajectos sinuosos mas nunca deixam de chegar ao mar. Será possível tanta sabedoria ser endossada com tamanha simplicidade? Existe coisa mais poderosa que isto?

Simplicidade, sim. Sem pretensiosas teorizações, sem pseudo vanguardismos. Mas também sem falsas modéstias. Esse homem, poderíamos dizer, é a música transformada em carne. O som tranformado em osso. Hermeto paira numa outra dimensão e é ele que de alguma forma faz o "link" entre Bach e Luís Gonzaga, entre Miles Davis e Jackson do Pandeiro, entre Jobim e Kituxi. Este homem, dizem, só podia ser brasileiro.

E Eu, desculpem lá, mas não pude deixar de sair de lá sentindo-me feliz e mesmo abençoado. Perdoem-me se é heresia, mas desconfio que mais intenso que isto só mesmo se Miles ressuscitasse para um derradeiro improviso.

1 Comments:

At 11:31 PM, Blogger E-clair said...

Hermeto did it again... :) O bom destas sons-memória é que além de estremecerem sempre algo em nós, ainda por cima se alojam num qualquer canto para depois nos visitarem num sorriso ou num calor suave...

 

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