24.4.05

Angola : As misérias dos ricos no “safa, safa”

Ouvi recentemente a notícia: A OMS estava a pedir que houvesse doações internacionais para aquisição de material médico para ajudar na contenção da febre hemorrágica que surgiu no Uíge. E em que valor era o material? Três milhões de dólares.

Não quis acreditar. Um pedido internacional de três milhões de dólares? Então e os empresários nacionais? E os governantes milionários? E os generais?

Quem for a Luanda ficará certamente espantado com a banalidade com que se fala em dólares. Milhões de dólares. “Aquela casa ali? É do Xyz, custou 12 milhões de dólares. E o que faz, esse o Xyz? Não sabes? É empresário. E aquele iate? Esse custou dois milhões, é a prenda de casamento que ministro fulano deu a filha do general sicrano.”

Os governantes, todos sabem, são ricos. Os generais e os deputados também. Ninguém consegue explicar como. Dizem e diz-se que todos são “empresários” e enriqueceram com “negócios”. Que negócios, ninguém conseguem explicar ao certo. Também não é preciso. Ninguém investiga, não há separação entre órgãos de soberania, e portanto, entre eles, comem todos. Enquanto isso, o povo, para entreter a fome, vai admirando à distancia os casarões e fazendo adeus aos Mercedes pretos de vidros fumados que passam ágeis entre os buracos da estrada.

De vez em quando, a “human rights watch” ou uma variante lá faz um relatório sobre a corrupção em Angola. Mas, em Angola ninguém liga. O povo quer lá saber. O povo tem é fome. Melhor dizendo: o povo tem fomes. O objectivo é ter o que comer, para depois ter energia para pensar, analisar profundamente se não há um primo, um sobrinho, um tio – nem que seja em décimo nono grau –, que faça também parte da grande mesa onde todos comem. O grande objectivo é descobrir na árvore genealógica, o familiar que têm os “puros” contactos. Se não houver nenhum, o próximo passo é procurar na trepadeira genealógica do vizinho. Afinal, vizinho também é praticamente parente.

Já as elites desengajadas e pensantes, no seu pseudo nacionalismo proto chauvinista ficam revoltadas ao ler, nos tais relatórios ONGistas, exactamente o mesmo que eles dizem nos almoços de fim-de-semana. É o que se pode resumir em “ nós podemos falar mal desta porcaria, mas os estrangeiros não”. Algo que foi aliás aprendido com os portugueses.

Voltando aos empresários: percebe-se que são todos muito “talentosos” pois nunca se ouve falar que algum tenha entrado em falência. Além do seu inegável talento, convêm talvez acrescentar que beneficiam de financiamentos e créditos infinitos mas invisíveis. Sim, porque Angola é um país rico e o seu governo generoso. Para si mesmo e para os seus amigos. Os outros empresários, os que não são “amigos”, esses têm de se candidatar aos magros créditos visíveis. Procurar um financiamento bancário, um alembamento camanguista, enfim, safar-se.

“Safar” e aliás a palavra de ordem. A maior parte da população não tem trabalho. Cada desempregado tenta desenrascar uns “esquemas que safem a situação”. Os tais “empresários”, não geram emprego. Não estão interessados. Os seus negócios são apenas de “importação/exportação”. Não há investimento à médio/longo prazo. O que interessa é tirar lucros imediatos, se possível sem investir muito. Nisso os “empresários” angolanos são iguaizinhos aos estrangeiros. E por isso também surgem as “parcerias esquisitas”: com libaneses, chineses, israelitas, russos, brasileiros, etc., etc.Alguns empresários estrangeiros menos adeptos de “esquisitices”, às vezes até chegam com ideias audaciosas, mas depois conversam com “quem está no terreno” que lhes explica como funcionam “as coisas”. “Automaticamente” só lhe restam duas alternativas: “Adaptar-se” ou “bazar”. A maioria opta por se “safar”. Há uma palavra inglesa que qualquer criança Luandense com 7 anos sabe dizer: “business”.

No fundo os tais empresários e os tais governantes acreditam pouco em Angola. Preferem pôr os seus milhões num qualquer banco estrangeiro e esperar para ver, não vá amanhã aparecer alguém a arrastá-los dali para fora. Parece que não perderam a mentalidade de colonizados e comportam-se como ocupantes temporários.

Faz-me lembrar a história sobre um soldado de um dos movimentos de libertação, que na véspera da independência, ao ocupar um dos quartéis portugueses, resolveu urinar no chão do refeitório, porque, dizia ele, “os tugas quando voltarem vão encontrar isto tudo mijado”. Claro que nessa altura havia sempre um comandante politizado capaz de explicar ao soldado que “os Tugas não vão voltar mais. É independência mesmo.” E que havia que “preservar as coisas porque agora eram nossas e de todos”. Hoje esse comandante mudou muito ou então- sou capaz de apostar - não se deu bem na vida. Provavelmente, hoje está-se a safar.

Nada disto é novo. O que é novo para mim é que se armem em pobres. Os angolanos em geral, os luandenses em particular sempre gostaram de se armar em ricos. E os novos-ricos luandenses são os mestres supremos da arte de exibir. Ele é carros de luxo, ele é barcos de recreio, ele é palacetes com piscina, guardas e capangas, cozinheiros e motoristas, ele é casa de praia, ele é helicópteros e aviões, amantes e – a nova moda – exibição de amigos internacionalmente famosos (actores, cantores portugueses, espanhóis, brasileiros e americanos).

É por isso que pergunto: onde andam os empresários sempre dispostos a contratar um "Bustha Rymes" para cantar em praça pública com cerveja de graça para todo o mundo? Onde estão os ministros que oferecem, do seu – "seu" é como quem diz... – próprio bolso, escolas, creches e lares? Finalmente: onde está o presidente e a sua milagreira fundação? Ou será que a similitude entre a dita e um adubo natural vai para além do nome?

Agora, que podiam mostrar que têm “power”, assobiam para o lado e fingem que não é nada com eles. Preferem que seja comunidade internacional a dar os “míseros” três milhões de dólares. Claro. Porque se haviam de preocupar? O vírus de marburg não chega as suas casas, não entra nos Mercedes nem no jipe 4x4. O vírus de marburg não anda de avião nem de helicóptero. Não vai a praia, nem tem casa no mussulo. O vírus de marburg está entre o povo. Só pode contaminar o povo e aqueles poucos, incautos que andam com o povo. Na realidade, aos olhos desses salteadores mascarados de empresários mascarados de governantes, o vírus de Marburg é o povo. De repente lembrei-me de um trecho da música “Haiti” de Gil e Caetano: “Pobres são como podres”. Em Angola só quem não se safa é o povo.

4 Comments:

At 3:18 PM, Anonymous Anonymous said...

Muito bom Sacha! E bom haver alguem a falar disto tudo tao abertamente. Esta situacao faz lembrar o que aconteceu no fim dos anos 80 quando o governo Angolano decidiu comprar mercedes ultimos modelo para todos os seus membros e 'amigos'. Tal compra foi feita na Alemanha. Cerca de 2 ou 3 meses depois Angola pede ajuda humanitaria a Alemnha! E claro que os Alemaes mandaram-nos passear... depois dizem que os Europeus sao egoistas e que nao querem ajudar os povos e paises subdesenvolvidos...
Abraco
David

 
At 10:11 AM, Anonymous Anonymous said...

Mais uma vez `e bom saber que existem poucas pessoas dispostas a falar abertamente sobre situacoes tristes de angola. Tens razao em dizer que em Angola quem sofre `e o povo mas esqueces-te de quem tem o poder `e o povo e nao os governantes (eles representam somente 0.5% da populacao). Estamos todos cansados e revoltados com as injusticas e autrocidades feitas em angola (estamos cheios de boas intencoes e solucoes) mas nenhum de nos vai la para o terreno, mobiliza populacoes e faz-se ouvir!
o governo tem o poder que tem porque o povo da-lhe tal poder e sao eles os unicos que o povo conhece! A comunidade estrangeira e o banco mundial cessaram todo e qqr tipo de ajuda `a angola por todos os motivos que mencionaste(corrupcao, abuso ao direitos humanos e etc);e tenhem tda a razao.
Nao existe nada de errado com o MPLA como partido mas sim, com as pessoas que o constituem.
Existem 2 tipos de pessoas neste mundo: os que lideram e os que seguem. If you're neutral, come out in the open and make new followers because You'll be amazed!
There're many people who happen to think like you but it takes one person to stand by his principles of life, ethics & morals, to make a difference.
One should not pretend to be one of the people but to be for the people.
The old game will always win : the mind game and the survival fo the fittest!
Regards
N.H.B.Africano

 
At 2:46 PM, Anonymous Anonymous said...

Good job Sacha!!!

O país está realmente mal. Criticize it and I will advertise it.

 
At 6:13 PM, Blogger manceu said...

Boas...;pessoal ja se esqueceram que ha uns anos atrás Angola(governo) depois de comprar uma frota(entenda-se frota como varias centenas de unidades)de Toyotas(a pronto pagamento) fez um pedido que lhes foi recusado pelo Japão de uma outra ajuda humanitária(num valor inferior ao da compra anteriormente feita)?Eles no poder mudam mas as mentálidades infectadas dos seus substitutos não,esta cadeia vai continuar...,O jonas ja se foi e a pior guerra civil em Angola acabou de começar com a sua(feliz ou infeliz) ida e até chegar a altura de se pensar em mudar de mentalidade muitos Jonas hão de passar pelo poder(não matam ao tiro,matam de outra forma,mas acabamos sempre na mesma "entre a espada e a parede");é chato ter informação,saber que ha capacidade para mudar as coisas,e ver que nada muda;...somos povo.

 

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