25.9.05

Prisão-preventiva

para apóstolos da auto-estrada para todo o lado
para apanhadores profissionais de seca
para encolhedores de ombros
para escultores do mundo em um metro e picos
para abrilhantadores-rápidos dos escultores

.

21.9.05

Para que serve uma parede nua?

Para ter vontade de desenhar a árvore que se lá vê quando braços e tronco se espreguiçam antes do abraço.

Lugar-Comum

O que construir tem de bom é sabermos que a destruição demora menos do que o segundo em que a boca e os olhos se abrem, irreversivelmente surpreendidos.

18.9.05

Vida breve

Morreram de amor mas no Hades não puderam ficar
ateavam fogo a tudo só com o respirar
voltaram, um pouco aturdidos
é isto amar?

17.9.05

Em trânsito

O que mais me cativa num relato de viagem é a aridez estilística. Quanto mais lírico, mais roubada me sinto. A viagem, depois de escrita, pertence a quem a lê. É bom que a distância do sofá ao desfiladeiro permaneça longa, tão longa que seduza mente e corpo a pôr-se a caminho.

15.9.05

Rash existencial

Vão andar por aí uns seres inchados de orgulhos vários a protestar, com voz hetero-grossa. Trazem grandes sacos de ar às costas. Os sacos são pesados. Eles pensam que é o peso da sua própria importância. Eu já sei o que vão dizer. Pensam em playback. São tão patéticos que apetece ter pena, são tão venenosos que apetece aparentá-los ao Ebola, sem desprimor para o Ebola.
Que fazer? Cada sociedade tem o que merece. Ou não?

12.9.05

"Speak low if you speak love."

William Shakespeare

10.9.05

Para o Daniel*

Sei que há mais do que seis pessoas que me pensam bem
Ouço-as, e que alívio não ouvir com a carne!
Seis, foi até onde cheguei mas não me fico por aqui
Deixo-vos a fazer contas ao tempo em que me esqueceram
Não me despeço porque ainda não encontrei as palavras
Nem uma voz que não vos esfrangalhe em mil bocados
Há mais liberdade aqui, tem de haver
Seis palmos, já é viver?

*Daniel Carvalho, seis anos, Caxias.

Al Jarreau era o Glow.


O Al Jarreau surgiu-me, ainda na infância, como único banho que, depois de comer, não só não era indigesto mas chegava mesmo a ser obrigatório.

Passo a explicar:

Eu vivia em Luanda, tinha os meus 8 ou 9 anos e todos os dias, após o almoço na casa dos avós, a minha jovem tia Mini-Hó iniciava uma sessão de audição de discos vinil, que se prolongava pela tarde dentro. O meu papel, enquanto não podia ir jogar futebol no areal com os meus amigos, ou porque estava muito sol, porque tinha acabado de comer, era ficar ouvindo também.

Acontece que a minha tia, com quem, aliás, eu partilhava grandes cumplicidades, tinha uma maneira peculiar de ouvir discos. Verdadeira como era, só conseguia “apaixonar-se” por um disco de cada vez, e assim sendo, literalmente, não ouvia mais nada enquanto esse seu amor “sobrevivesse”. Normalmente, e para seu desgosto, era disco que cedia antes. Usando as palavras do meu pai: a minha tia desintegrava os discos de tanto os ouvir. De tanto os amar.

O disco Glow era um dos alvos dessas paixões. Eram tardes inteiras de repetição, cada música tocada sete ou oito vezes. Era de tal forma que, como o grau de tolerância dos meus avós para com as “manias” da minha tia, a filha caçula (*), era elevado, acabavam sendo os outros habitues da casa a desinibir-se e reclamar. Lembro-me de um amigo da família, um dia não se ter conseguido conter: “ Bem, já me vou embora, porque não aguento mais ouvir este senhor perguntar pela criança” disse, após ter sido submetido a uma audição em “loop” de “have you seen the child” uma das faixas do disco.

Talvez por ser um nome muito mais fácil e menos susceptível de causar dúvidas a uma criança de 8 anos, na minha cabeça era o cantor que se chamava Glow. Sim, o homem que, na capa, aparecia com uma camisola vermelha, e que tapava o sorriso com a mão, era o Glow e isso para mim fazia todo o sentido, mesmo após a minha tia se ter apressado na correcção: “É Al Jarreau”

Ia ouvindo o Glow a cantar, a cantar e a minha tia a cantar por cima, num sotaque perfeito, e de repente dava comigo a esquecer-me dos amigos e do futebol e a embarcar na pureza, para mim indecifrável, de “Your song” ou a absorver o ritmo dançante de “Rainbow in your eyes”. Mas o momento verdadeiramente esperado era o daqueles curtos minutos em que tocava a música sem instrumentos e só com vozes: “Hold on me”. Pairando na minha cabeça, aquela música foi transformando o Al “Glow” num craque mais craque que o Beto, que era só o mais habilidoso dos meus companheiros de futebol no areal. Acho que foi assim que foi esmorecendo a minha sedução pelo futebol e nascendo este amor eterno: a música.

Frequentemente pergunto-me se "Blackbird" cantado por Bobby Mcferrin, ou se "Quinta das torrinhas", na versão em dueto de Maria João com Aki Takase, faria sentido aos meus ouvidos se, com oito anos não tivesse ouvido Al “Glow” Jarreau, cantar “Hold on me”.

Mais tarde, em plena pré-adolescência e já dono e senhor da uma pessíma e efémera, mas empenhada, escolha auditiva, ainda encontrava espaço para ouvir Al Jarreau. O disco ouvido já não era evidentemente o Glow porque esse há muito tinha sido “desintegrado” pela tia Mini-Hó. Agora era eu quem se dedicava a cantar por cima de “L is for lover” que tinha ganho, novinho, em formato cassete, do meu pai após a sua viagem a, então distante, Lisboa. Lembro-me da sua expressão, quando no meio das minhas outras escolhas – que incluía um dos U2, um dos Duran Duran e um dos Techonotronic – eu nomeei Al Jarreau. Era o único que ele aprovava.

Consigo ainda hoje reinvocar os sentimentos de raiva e frustração então sentidos quando, após horas de espera ansiosa pela transmissão do concerto de Al Jarreau em Londres, anunciado com pompa e circunstância pela TPA (Televisão Popular de Angola), a electricidade faltou em todo o meu bairro, precisamente cinco minutos antes da hora programada para o início do tal concerto. Só muito mais tarde, consegui conhecer alguém que, vivendo do outro lado da cidade e portanto não afectado pelo corte de electricidade, tinha milagrosamente um vídeo gravador pronto a disparar no momento preciso em que Jarreau começava a cantar com um sorriso maravilhado “Lets pretend, we are in another world.”. Em Luanda era mesmo isso que fazíamos todos os dias.

DMRS: Curiosa Coincidência

Quem usar o Google para procurar o site do "Departamento de Modernização e Recursos de Saúde" do Ministério, encontra também a "Division Of Mental Retardation Service".

8.9.05

vida

o aniversário é uma lágrima doce
na alforria da nostalgia
o ombro no virar da esquina

a vida pequena arde numa vela de cera
que sopre o vento sobre a chama
no confinado derrame de alma

qual círculo perpétuo,
qual utopia
que ocorrência mais esquisita




por Willie Mays

"vontade de dormir"

fios de oiro puxam por mim
a soerguer-me na poeira
— cada um para seu fim,
cada um para seu norte...

— ai que saudade da morte...

quero dormir... ancorar...

arranquem-me esta grandeza!
— p’ra que me sonha a beleza
se a não posso transmigrar?...


Mário de Sá-Carneiro

7.9.05

Revolução Prometida



Dois terços dos 800 milhões de adultos analfabetos são mulheres


6.9.05

gente!

a vida é um símbolo
a nostalgia uma necessidade
o presente um acidente
água, ar, terra

5.9.05

Who wants to be a re-fu-gee?

Jesse Jackson recusou o epíteto dizendo que as vítimas do Katrina são "american citizens". Será a cidadania o refúgio da tempestade?