31.12.04

o ano recorrente

o recurso é o próximo ano
talvez é uma palavra demasiado forte
e o desejo está eminente
como um anjo decadente
o sol põe-se, a lua floresce
e assim anoitece
ao contrário amanhece
é o fim do ano
é o fim do dia
uma nova vida
ali, um novo ano
talvez
talvez não me parece




por Willie Mays

28.12.04

A dor e a escala Richter

Como lhe chamar? Tragédia? Drama? Desastre? Catástrofe? Tudo palavras repetidas e gastas. Banalizadas pela média, desprovidas do seu peso molecular. Parece que o melhor é não lhe chamar nada, apontar só. Com o dedo.

Os média multiplicam-se em informações e reportagens. Reportagens e entrevistas. Para quê?

Por cada actualização, por cada nova contagem de mortos ou feridos o que aconteceu apenas se torna mais abstracto, mais frio mais banal. E não pode ser banal. Não pode ser mera curiosidade.

Qual é o interesse de ouvir a descrição do português que já conseguiu chegar à Macau? Qual é o interesse da pergunta feita por muitos jornalistas aos seus correspondentes in loco, sobre a percentagem de destruição?

O que realmente interessa saber é como e o que fazer para dar a ajuda possível. Ajudar e Saber o que está ser feito.

Sei que, na realidade, por muita solidariedade que muitos digam ter e sentir, nunca chegamos sequer vislumbrar a um pouco da dimensão da dor dos outros. E quanto mais longe estiverem de nós, pior. Sei que daqui a quatro dias, a maior parte das pessoas vai estar a festejar a passagem de ano, da melhor e mais festiva maneira que puder. É assim a natureza humana. Todos somos um pouco assim.

Mas um pouco de pudor por parte dos média serviria para nos educar. Para que tivéssemos alguma contrição.

Não sei o que mais dizer.

Fiquem com as palavras de Márcio Faraco:


A Dor na Escala Richter

A terra treme do outro lado do planeta
Enquanto a calmaria daqui me abala
Uma outra guerra traz a morte violenta
E eu aqui comendo pipoca na sala

Ah, se eu medisse minha dor na escala Richter
Ou ao menos inventasse uma escala
Será que a dor de não ter nada se compara
Na intensidade à dor de quem tudo perdeu

Qual seria a dor mais forte desse mundo
Acho que dor talvez mereça ser revista
Pois a dor que vejo na revista a cores
Não parece tão real quanto a que eu sinto em mim

É tanta coisa que se vê como notícia
Que a importância vira curiosidade
Não que a morte seja um fato indiferente
Ou tão distante para ser uma verdade

É que na confusão dos sentimentos
Entre o fútil da princesa e seu amante
Um terremoto só parece verdadeiro
Quando a tv cai de cima da estante

23.12.04

Neal Evans


Quando ouvir os Soulive, lembre-se, não há baixista. as intrépidas baixas frequências que lhe dão vontade de dançar, vêm todas da mão esquerda de Neal Evans. A mão direita providencia o suporte harmonico e melódico. Impressionante. Posted by Hello

Eric Krasno


solo após solo, improviso após improviso, alma e vivacidade, um "soulive", pois então Posted by Hello

Soulive, os novos "groove masters"


O formato trio composto por bateria, orgão e guitarra, tem raízes firmes na história do jazz. Algumas vezes foi sobretudo um veículo económico de suporte do líder ( nos casos dos trio de Wes Montgomery, Jimmy Smith, Grant Green) outras era um all-star de extensiva improvisação colectiva ( por ex. Tony Williams Lifetime).
O grupo Soulive tem os pés assentes em toda essa tradição, mas ao mesmo tempo, sem complexos, pisca o olho e tem os ouvidos atentos ao Hip Hop e Funk que se vai fazendo nos dias de hoje. São pois um grupo capaz de trazer o jazz e o gozo pelo improviso as audiências mais jovens. Fundado em 1999, o grupo é composto pelos irmãos Evans (Neal:orgão Hammond-B3; Alan:bateria) e o guitarrista Eric Krasno. O sinal de apreço pelo seu veio de John Scofield, ao participar em Tourn it Out, o segundo disco dos Soulive. A editora Blue Note não esperou mais tempo e contractou-os assim como já fizera com o outro trio "groove oriented" de referência: Medeski, Martin & Wood e com Charlie Hunter (que também trabalha frequentemente com trios).
Pela Blue Note, os Soulive, lançaram três discos: Doin´Something (2001), Next (2002) e o último simplesmente chamado Soulive (2003). O disco é ao vivo e isso ainda torna mais impressionante o virtuosismo e versatilidade músical destes jovens músicos. É um disco intenso, daqueles que nos poem, se estivermos bem dispostos, a abanar a cabeça e a mexer os pés. Posted by Hello

Paisagens Sonoras: Suspended Night, Tomasz Stanko


Com um uso inquietante do silêncio, a preferência pelos registos médios e o timbre "redondo" o trompetista polácoTomasz Stanko é um caso de "milesianismo" genuíno. As suas composições enquadram-se perfeitamente no seu estílo de improvisar (e vice-versa). Acompanhado pelo mesmo trio de jovens compatriotas que já tinha brilhado no disco anterior ( soul of things), "Suspended Night" ( editora ECM) é, mais de que um mero cartão de visita, um dos mais conseguidos discos de Stanko. É por isso um dos grandes discos de Jazz deste ano. Posted by Hello


Descansando os Olhos:Nauphlia, Riva Helfond Posted by Hello

Retrospectiva das "paisagens sonoras" do ano


Brasileiros e Músicas Brasileiras: Alguns dos bons discos deste ano

Guilherme de Brito -A Flor e os Espinhos
Jards Macalé - Amor Ordem e Progresso
João Donato - Managarroba
Guinga - Noturno Copacabana
Olívia Hime - Chiquinha Gonzaga
Luciana de Sousa - Brazilian Duos
Mónica Salmaso - Iaia
Rosália de Sousa - Nicola Conte apresenta…
Rosa Passos - Eu e meu Coração
Alceu Valença - De Janeiro a Janeiro
Ed Motta - Poptical
Jobim
Sinfónico
Posted by Hello
a "bold" - imprescindíveis

22.12.04


Descansando os Olhos: Marc Ribaud, Paris 1953 Posted by Hello

Coisas Lidas: Co-incineração Essencial para a Imagem de José Sócrates


O que é o "síndrome banana"? Foi o próprio José Sócrates quem o explicou ontem, durante um encontro com a JS numa discoteca de Lisboa. Segundo o secretário-geral do PS - que citava "um autor inglês" --houve três maneiras de se encarar o problema da co-incineração: a fórmula "NIMBY" ("Not in my back yard", que quer dizer "não no meu quintal"), que evoluiu para "NIMET" ("Not in my electoral term", que significa "não no meu círculo eleitoral") e, por fim, o síndrome "BANANA" --"Build absolutely nothing anywhere near anybody", ou seja, não se contrói nada em lado nenhum perto de ninguém. Em resumo, não se faz nada.
José Sócrates, que acusa o Governo de ter optado, como estratégia relativamente ao tratamento de resíduos perigosos, pela solução "banana", decidiu reiterar que um futuro governo PS colocará em marcha a opção defendida por si próprio enquanto ministro do Ambiente do Governo liderando por Guterres. Ora, a co-incineração foi das propostas do guterrismo que mais ondas de choque provocou, nomeadamente com o PS-Coimbra e com os deputados socialistas eleitos por Coimbra - distrito onde se situa Souselas, local de uma das cimenteiras onde seria feita a co-incineração.

Mas a importância da co-incineração é muito maior, para José Sócrates, do que uma simples(?????) opção de queima de resíduos industriais. Para o líder do PS, está em causa a sua imagem(?????) de "determinação" e "firmeza" que considera ter demonstrado à época e vai querer utilizar como mais-valia na campanha eleitoral.

Comentário:
O problema de Sócrates continua a ser, isso sim, distânciar-se da imagem de Santana Lopes. O que esta (pseudo?) notícia faz é justamente trazer Sócrates para a esfera da "obcessão da imagem", o "Páthos" de Santana. O problema é que a situação é um pouco tipo "pescada de rabo na boca": Por muito que Sócrates tente mostrar que tem convicções ( algumas até impopulares) alguém poderá sempre dizer que é uma representação de um homem convicto, por um questão de imagem. . O problema é se a notícia for de facto real. Aí é que o país está mesmo perante um grande sarilho.
PS - por falar em bananas, nesta altura de prendas, o velho filme de Woody Allen pode ser uma boa alternativa ao DVD do gato fedorento. ainda não há edição portuguesa, mas a versão importada não é cara e terá quase a certeza que a sua oferta é única.


Descansando os Olhos: Vertis Hayes, persuit of happiness (II) - Harlem Hospital, 1936 Posted by Hello

E agora Bagão?


Agônico
Em êxtase
Em Pânico

(...)

Incomúnicável
O que deciframos de ti

(...)
Não cintilas como é custume dos astros
Não és responsável pelo que bordam em tua corola
os passageiros da presiganga

(trechos do poema "discurso" da Drummond de Andrade - a quem se pode desculpa pelo desadequado e inútil uso das suas puras palavras.) Posted by Hello

Coisas Lidas IV: Bruxelas Chumba Operação de Salvação do Défice Orçamental

A Comissão Europeia chumbou, ontem, a operação de cedência temporária de 65 imóveis do Estado e de institutos públicos, considerada pelo Governo como necessária para cumprir a meta de um défice orçamental abaixo três por cento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004. O primeiro-ministro foi apanhado de surpresa e os responsáveis do Ministério das Finanças mostraram-se indisponíveis para esclarecer dúvidas sobre as consequências desta decisão.(....)

(...)A venda de imóveis é desde o ano passado, quando o Ministério das Finanças era ocupado por Ferreira Leite, assumida como a medida derradeira para que o défice orçamental fique abaixo dos três por cento do Produto Interno Bruto (PIB), e foi autorizada com a aprovação do Orçamento do Estado de 2004. O valor que o Estado pretende arrecadar com esta operação é de mil milhões de euros, mas, segundo a Lusa, relativa a 200 imóveis. Em 2003, o Governo recorreu à venda directa de imóveis e nessa altura encaixou 2,2 milhões de euros, através da alienação de terrenos (urbanos e rústicos), edifícios e casas.

A divulgação da operação, a poucos dias do final do ano, surpreendeu mesmo os presidentes dos institutos visados, os quais foram confrontados igualmente com a publicação no jornal oficial de uma minuta que teriam apenas de assinar, mesmo desconhecendo por que valores de venda.

O Governo não justificou a alteração do método - mais rápido, quando se sabe que a operação tem de ser feita impreterivelmente até 31 de Dezembro, mas mesmo assim obrigado a um conjunto de anúncios públicos demorados. Por outro lado,
não divulgou os custos futuros da operação, já que as entidades públicas a funcionar nos 65 imóveis passariam a ter de pagar rendas, na qualidade de inquilinos.

Uma chuva de críticas abateu-se sobre o Governo. Passados uns dias, na passada quarta-feira, o ministro das Finanças anunciou outra mudança nesta operação. Deixava de ser por ajuste directo, para passar a ser por "cessão temporária e locação operacional". Basicamente, o Governo entregava os imóveis como garantia de um financiamento, de montantes desconhecidos, por prazos não conhecidos e com taxas de juro não divulgadas. Do Ministério das Finanças, prometeu-se uma conferência de imprensa para esta semana, com vista a explicar a operação.

A mudança verificada foi assumida como uma proposta de Bagão Félix ao primeiro-ministro, explicada pelo facto de, desde a data de aprovação da resolução do Conselho de Ministros, o Governo ter passado "à condição de Governo de gestão". O ministro das Finanças tinha proposto a Santana Lopes que se "deixasse de considerar a opção pela venda dos bens imóveis por razões de ética política e se decidisse privilegiar a operação do tipo de cessão temporária e locação operacional". Para a medida avançar, o Governo precisava da autorização da Comissão Europeia e do Presidente da República. Ontem, Bruxelas vetou a "penhora" dos 65 imóveis.

Coisa Lidas III:'Gato Fedorento', o presente de Natal , por josé francisco gandarez

Permitam-me sugerir como presente ideal, para este Natal de 2004, o DVD intitulado O Gato Fedorento, série Fonseca...

Em primeiro lugar, porque cumpre os requisitos do Pacto de Estabilidade, dado que a sua compra não afecta o défice dos três por cento, uma vez que o preço é acessível.

Em segundo lugar, pelo simbolismo que encerra.

De facto, Ricardo Araújo Pereira, Zé Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis deram e dão um exemplo ao País e fazem-nos acreditar numa sociedade em que a meritocracia e a excelência podem ser valores predominantes.

Sem meios - com a excepção de um bigode! -, mas com a simplicidade dos génios, são hoje um caso de justo sucesso.

Sem apoios estatais e o correspondente muro de lamentações, fizeram de um blogue uma série de humor de culto!

Sem recorrerem às ofensas gratuitas, nem às palavras obscenas, mas decerto que com muito trabalho e criatividade, fazem-nos rir incessantemente de...banalidades, que representam e preenchem o quotidiano.

Este quarteto é hoje um verdadeiro exemplo de empreendedorismo, a PME - pequena/média empresa - do ano.

Em terceiro e último lugar, porque tem a grande virtude de nos fazer rir de nós próprios.

Resta desejar um santo Natal para todos, se possível a sorrir


Comentário do Abre-Surdo: Obviamente Apoiamos

Mais Coisas Lidas

Moçambique: UE Confirma Fraudes.

O chefe da missão de observadores da União Europeia (UE), Javier Pomés, denunciou ontem "diversas e graves irregularidades" nas eleições gerais em Moçambique. As "disfunções" não põem em causa uma vitória da Frelimo e do seu candidato presidencial, Armando Guebuza, mas podem retirar assentos parlamentares à Renamo-União Eleitoral, considerou o eurodeputado espanhol numa conferência de imprensa em Maputo, no dia em que era aguardado a todo o momento o anúncio oficial dos resultados definitivos da votação de 1 e 2 de Dezembro.(...)

(...)Lançou duras críticas aos órgãos eleitorais moçambicanos - CNE e Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE) - que acusou de terem "desperdiçado tempo, dinheiro e conselhos" e de serem estruturas "fortemente politizadas". A UE "não quis nem pôde" controlar os cerca de 12 milhões de euros que disponibilizou directamente para o Orçamento de Estado moçambicano para a realização do voto, acrescentou.realização do voto, acrescentou
.

Coisas Lidas I: O vício ideal, por Alberto Gonçalves

Embora reconheça que o eng. Sócrates “fala bem e depressa”, o dr. Marques Mendes acha que o homem “não tem uma única ideia na cabeça.” Não? Para demonstrar que o dr. Marques Mendes é distraído ou mentiroso, o eng. Sócrates avançou de seguida com uma súmula de um programa de governo: caso ganhe as eleições, prometeu “aproveitar o que está bem e corrigir o que está mal.”

Não só estas palavras foram proferidas com excelente dicção e assinalável rapidez, como elas consubstanciam uma espécie de ideia. Por acaso, uma ideia genial. Fosse o chefe do PS um pelintra avulso, desses que se passeiam sem “postura de Estado”, é certo que garantiria a aniquilação de tudo o que funciona e o desenvolvimento do que já não tem conserto. Felizmente, o eng. Sócrates é figura de superior calibre, e vai direitinho à questão: aproveitar o que está bem e corrigir o que está mal. Brilhante. (...)

é escusado lembrar o séc. XIX, em que as “reformas” (a expressão coeva para “ideia”) que os políticos pretendiam redundavam fatalmente na reforma dos próprios políticos. Percorrendo o vasto rol dos nossos líderes recentes, verifica-se que as capacidades oratórias variam, e que a simpatia também: as ideias são uma constante. Não houve primeiro-ministro que não exibisse uma, dez, cem louváveis ideias para o País. Soares não tinha mais nada. Cavaco possuía-as em versão grandiloquente. Guterres fabricava várias, das pequeninas, por dia. Com Santana, elas atropelavam-se a tal ponto que nem chegavam a passar de esboços. A todas, o País permaneceu rigorosamente alheio.

Portugal não se move por ideias. Em cem anos, Portugal apenas se moveu, e nem sempre para o melhor lado, graças a três revoluções e aos “fundos” europeus. Dado que a generosidade da União não dura muito e que as sublevações são um aborrecimento, se calhar o nosso destino é ficarmos por aqui, exactamente onde estamos.

De qualquer modo, continuaremos a dispensar as ideias dos governantes. E só não dispensamos os governantes porque, enquanto andam em S. Bento, a pensar que redimem a pátria, andam entretidos. E não se metem em vícios piores.


21.12.04


Descansando os Olhos: Vertis Hayes, Persuit of Happiness- Harlem Hospital (oil on canvas, 1936) Posted by Hello

19.12.04

Retrospectiva das "Paisagens" Sonoras: Discos


Músicos e Músicas Africanas: Discos do Ano

Abyssinia infinite featuring Gigi Chibabaw - Zion Roots (Etiópia)
Zap Mama - Ancestry in progress
Rokia Traoré - Bowmboy ( Mali)
Youssou N´dor- Egypt ( Senegal)
Etienne Mbappe - Misiya (Camarões)
Ray Lema- Mizica ( R.D.Congo)
Richard Bona - Munia ( Camarões)
Mory Kante - Sabou ( Guiné Conakri)
Toto, Richard Bona & Lukua Kanza- Toto Bona Lukua
Cesária Evora - Voz D´Amor ( Cabo Verde)
Lukua Kanza - Tiebi te ( R.D.Congo).

Colectânea
Africa - the essential album


a "bold"- imprescidíveis - Posted by Hello

18.12.04

Gil


Gil, foto de Arlette Kotchounian
Vendo o panorama geral da minha vida, eu fiz tudo para ser quem eu sou, para estar no lugar em que estou e sentir a vida de modo a estar em conformidade com ela. É o que sempre digo: a conformidade conforme a idade. Tenho a idade que tenho hoje e uma vida em conformidade com ela.

Eu gosto da idéia de envelhecer. E, diante da Divindade, ainda me penitencio de um pecado, que eu acho forte, e de que recentemente comecei a vislumbrar a possibilidade de me livrar, que é o desejo da boa morte. Pelo menos, tenho a impressão que nem esse desejo deveria ter, para, enfim, ter a sujeição absoluta: "Seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu". Acho até que nos devemos impor não desejar nem isso: que a morte seja isso ou seja aquilo ou que a vida seja longa ou qualquer coisa desse tipo. Não se deve especular sobre o destino e não se deve mexer nele.

É, e não se deve mexer nisso. Mas eu ainda tenho um pouco, de vez em quando, essa coisa de ficar tão encantado com as pessoas que morrem serenamente e ainda fico idealizando uma boa morte. E, de certa forma, tenho tentado, na medida do possível, com todos os insucessos, evidentemente, fazer uma preparação para essa boa morte, pois acho a boa morte um coroamento. Mas ainda "peco" por isso, e isso ainda me soa um pouco como uma ambição. Mas de todo modo, digamos, sem julgar essa atitude, essa manifestação em mim, eu venho fazendo a minha vida para isso, preparando a minha vida para a minha morte.


Em "GiLuminoso A Po.Ética do Ser" - Gilberto Gil 1999

Texto e fotografias retirados do Site Oficial de Gilberto Gil

O site é maravilhoso e em boa hora o "Camba" Horácio chamou a nossa atenção para ele.

Podem-se ouvir todas as músicas de todos os discos , podem-se ler os poemas/letras e, mais interessante ainda, comentários e explicações de algumas músicas. Há ainda fotografias e textos de Gil. Uma delícia para qualquer fã do "neguinho baiano"

Sugestão: o monólogo explicativo da origem da música" cibernética". clique neste link e depois clique no [altifalante] da música de cibernética .

Descansando os Olhos:


Peck Slip, Naima Rauam

Toda a paisagem tem um ar de sonho
Vejo o tempo parado, inutilmente
Tudo é menos real do que suponho
(...)
No espaço que me cerca estou suspenso
Em redor um olhar pasmado e mudo
E no ar a ameaça do silêncio denso
(...)
Em todo o sonho existe um extasiado
Olhar adormecido que vê tudo.....

(trechos de " O Homem e Sua Paisagem" Dante Milano, Poesias, 1948) Posted by Hello

17.12.04

Medo: Amália Rodrigues

neste Natal, interessa ouvir a Amália, num canto cheio de frio, para os que vivem no frio, sem um pedaço de pão que seja e os outros com sorrisos quentes, as mãos frias e bonecos de pano.

Amália Rodrigues : Medo
Música: Alain Oulman
Letra: Reinaldo Ferreira
In: "Segredos" 1997

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar?
Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


Descansando os Olhos: The El, Gerda Rose Posted by Hello

Vasco Câmara sobre "2046"

(...) Mas o realizador assumiu ali mesmo que, não fosse a data de um festival a marcar um prazo, o filme poderia ser terminado de outra forma (assim aconteceu: basta comparar o que está hoje nas salas com o filme que Cannes viu) ou a tarefa continuar para sempre.

Porque Wong Kar-wai, qual astronauta de um planeta que nunca se revela por inteiro (de que é difícil explicar o segredo, fica sempre uma incógnita), começa os filmes sem argumento e sem prazos, apenas com actores (que têm de se comprometer por anos...) e uma ideia. Que muda, que é desviada para outros percursos. Que é objecto de aproximações várias que iluminam zonas e personagens, obscurecendo outras - e depois pode ser ao contrário.

Na verdade - é a obra que o mostra - não se pode dizer que este cineasta parta para "um" filme. "Um" filme - assim aconteceu com "Days of Being Wild" ou "Chungking Express", com "Anjos Caídos" ou "Disponível Para Amar" - não é uma entidade distinta, é a imobilização, num momento do tempo, e por contingências várias (às vezes acidentes de produção), de uma mesma corrente de histórias e personagens que está em movimento.

Cada filme é sempre uma variação a partir de uma mesma matéria. E cada filme conta as aventuras e desventuras do realizador no momento da concretização. Hipótese: "2046" conta a história de Wong Kar-wai num momento de crise, a seguir ao sucesso e à perfeição de "Disponível Para Amar", o filme anterior que se agigantou como um fantasma. "2046" demorou quatro anos a ser feito - tempo de bloqueio do realizador, de procura de uma saída. É um filme de alguém intimidado pelo passado, mas é um filme em que o realizador, como uma vítima entregando-se às delícias de um algoz, lida com as suas dificuldades fazendo a súmula das histórias e personagens (e até diálogos) que já antes imobilizara.(....)

Ler toda a crítica de Vasco Câmara

Ir ao Site do Filme

"2046" por Wong Kar-Wai, o realizador

Em declarações às revistas "Cahiers du Cinéma" e "Les Inrockuptibles", o cineasta deu conta do dilema:

"Precisei desse tempo todo [quatro anos, o tempo de produção] para perceber que 2046 [o espaço-tempo do filme onde as coisas não mudam] não existe. Foi nesse momento que decidi que a personagem de Tony Leung não queria ir para esse lugar, mas queria fugir dele, o que também é impossível, mas foi isso que desbloqueou o processo de realização ao fazer eco da minha própria situação enquanto cineasta. Tentei fugir de 'Disponível Para Amar' e percebi que, afinal, isso não tinha importância. Por isso reuni as referências a todos os meus filmes".

"Alguns vão pensar que eu não consigo escapar a 'Disponível Para Amar'. É preciso ver '2046' como um adeus a esse filme, uma forma de virar de página".

"Senti necessidade de filmar histórias situadas nos anos 60 quando percebi, há alguns anos, que os décors desse período estavam em vias de desaparecer. Mas desde que filmo os anos 60 percebi também que o décor contemporâneo está em vias de desaparecimento. É preciso, então, que eu regresse à época contemporânea. Se não, serei como Tony Leung em '2046', sempre atrás de uma coisa que está a desaparecer".


O site do filme é simplesmente espantoso:


"o amor é uma questão de oportunidade. De nada vale encontrar a pessoa certa se não for no momento certo" ( a frase não será exactamente assim, mas...anda proximo)

Raras são as ocasiões que se vai ao cinema para ver um filme e diante dos nossos olhos está um que elegemos imediatamente como um dos nosso favoritos de sempre. Pois bem, isso aconteceu ontem comigo. "2046" o filme de Wong Kar-Wai, que demorou 4 anos só a produzir, e uma "espécie de sequela" do magnífico "disponível para amar".

Wong Kar- Wai filma com uma beleza pungente e um domínio absoluto do rítmo: As persogens, sua lágrimas e sorrisos filmados em grande plano, A impotência perante o inevitável.

Ambos os "universos" filmados são belíssimos: o real (nos anos 60) e o fictício (o futurista, 2046 surgido da imaginação literária da personagem, o escritor Chow Mo-Wan).

E a música? A música é simplesmente de cortar a respiração.

Quem ainda não viu "2046" deverá faze-lo urgentemente.

Strange Liberation- um dos discos do ano


A primeira vez que ouvi Dave Douglas foi no Seixal Jazz há um bom par de anos atrás. O grupo e os temas eram de "Witness" aquele que era, na altura, o seu último disco. Confesso que não estava preparado para aquele concerto. E por isso não sai muito entusiamado. Mais tarde ouvi " a thousand evenings" um projecto mais intimista e rendi-me ao talento de Dave Dougas. Segui os seus passos no excelente album "freak in" de 2003. Mas com este "Strange Liberation" Douglas entrou para mim na categoria dos musicos que merecem a revisão auditiva total da sua obra. É o que vou fazer, a começar pelo "witness". Douglas merece. Posted by Hello


Descansando os Olhos: Chris Steele-Perkins, Kids in the Rain (1981) Posted by Hello

16.12.04

Cinema é a Solução


Portas e Santana já sabem o que vão fazer depois das eleições. Se o cenário de derrota se confirmar a alternativa é o Cinema

Marcello Rubini, personagem interpretado por Marcello Mastroianni no filme "La Dolce Vita" realizado em 1960 por Federico Fellini, vai servir de inspiração para a longa-metragem "Tá-se Bem, Yo( Os Portugueses Sabem) " realizada por Paulo Portas e tendo como actor principal Santana Lopes. Houve a necessidade de mudar o nome Marcello, por causa da alergia que o mesmo causa a nova dupla cinematográfica. Assim, a personagem de Santana, chamar-se-á Pedro Rubini.

Se é verdade que são públicas e notórias as capacidades de Portas & Santana para as artes de palco, o facto é que não foi antecipado que a dupla encarava a sétima arte como alternativa de carreira. A ideia partiu de Santana, depois de ter lido vários artigos de comentadores políticos mencionando e reconhecendo a sua a capacidade para "dramatização".

Depois de ouvir a proposta de Santana, Portas avisou logo "que se não fosse ele o realizador não haveria colig...…perdão, filme nenhum". Santana não se importou desde que fosse ele a aparecer na tela. Mesmo assim, Portas diz que fará como Hitchcock: "aparecerei no inicio do filme de forma aparentemente secundária mas com o tempo necessário para que o público reconheça o grande realizador".

O "casting" dos restantes actores já começou e ao que se sabe será um misto de actores, políticos e "outras celebridades rurais". Nicolau Brayner tem quase assegurado o seu quinquagésimo nono papel como polícia. O papel da loura fatal está a ser intensamente disputado por Alexandra Lencastre, Cinha Jardim e José Castelo Branco. O papel da mulher-soldado já foi garantido à futura Ex-Secretária de Estado das Artes e Espectáculos, Teresa Caeiro. A mesma confessou a "imensa alegria em poder finalmente interpretar o papel que sempre desejou, tá a ver?" mas enfatizou que " apesar do tudo e pelo que aconteceu no passado, só acredito mesmo quando começarem as filmagens, tá a ver?"

O filme começará a ser "rodado" em Março do ano que vem, depois de a dupla ter sido aliviada das penosas responsabilidades governativas.
Posted by Hello

Coisas Lidas e algum humor

Partidos Continuam a Esconder Contabilidade ao Tribunal Constitucional


(...)Reunidos a 16 de Novembro, aos juízes-conselheiros consideraram prestadas as contas, embora tenham assinalado, relativamente a alguns partidos "diversas ilegalidades ou irregularidades" que levaram ao envio das conclusões para o Ministério Público.

Os cinco principais partidos (PS, PSD, CDS, PCP e BE) estão nesta categoria
. Em qualquer um deles o TC detectou "não ser apresentada uma conta que integre o conjunto de toda a actividade partidária, incluindo a desenvolvida por todas as estruturas regionais". O que levou o tribunal a reconhecer a sua incapacidade na fiscalização dos dinheiros partidários.

Nas alíneas para qualquer um destes cinco partidos é reconhecido "não permitir a conta apresentada concluir se a totalidade dos fluxos financeiros se encontra integral e adequadamente reflectida na documentação junta pelo partido".

Este tipo de "irregularidade" acontece desde que o Tribunal Constitucional foi incumbido desta tarefa de fiscalização. Todos os anos os partidos admitem a falha, salientando os esforços de incluir a contabilidade regional nas suas contas.

Há, no entanto, partidos que cumprem a lei. O Tribunal Constitucional considerou em ordem as contas do Partido Ecologista "Os Verdes", do PSR, do POUS, do PNR e do MD (Movimento do Doente).
[Não, isto (ainda) não é o humor abre-surdo]

O passo seguinte no processo é a aplicação de coimas aos partidos prevaricadores
in publico

Mas há mais:
Ser da oposição, em Portugal, dá prejuízo. É uma conclusão que se pode tirar do relatório do Tribunal Constitucional (TC) sobre as contas dos partidos referentes a 2002, que ontem foi publicado em Diário da República.
De acordo com as contas apresentadas àquele tribunal, só o PSD e o CDS-PP obtiveram resultados positivos. Todas as outras formações – das representadas na Assembleia da República às com menos peso, como o Movimento pelo Doente – declararam prejuízos.O partido que mais lucro declarou, 614.192 euros, foi o CDS-PP. O PSD ficou-se por um excedente de 278.775 euros. No lado oposto, os socialistas foram quem registou maior prejuízo – um total de 456.029 euros – in correio da manhã
Só mais uma "Coisinha":
As contas apresentadas ao Tribunal Constitucional foram auditadas pela PricewaterhouseCoopers – Auditores e Consultores, Lda que conclui que três dos partidos com representação parlamentar não integraram nas suas demonstrações financeiras a globalidade das operações de financiamento e de funcionamento do partido. Situação que o tribunal considera “recorrente” e “grave” e que “impossibilita a obtenção de conclusões seguras sobre o montante e natureza da totalidade dos recursos financeiros obtidos em 2002” .
Não digo, mas não é difícil adivinhar quais são os 3 partidos referidos

Humor Abre-Surdo: "Ah! Com que então, estar no governo dá lucro aos partidos?" Logo se apressaram algumas almas invejosas, no traço mesquinho e vicioso que as caracteriza, querendo com isso insinuar o uso de processos escusos por parte de tão nobre e estável maioria. Quanto a mim, que sou uma pessoa de boa fé, penso que a notícia é apenas uma clara demonstração da grande capacidade gestora por parte da maioria inexplicavelmente dissolvida. Mais uma prova da tremenda injustiça que se cometeu. E isto não pode ser escamoteado! E tenho dito!.


Descansando os Olhos: Children Doing Handstands - Chris Steele-Perkins (1980) Posted by Hello

15.12.04

descansando os olhos


Somersault, William Klein (1955) Posted by Hello

Compromisso Portugal (mais um caso de para-a-frentismo)

O “compromisso Portugal” lá se fez receber por Santana e por Sócrates. Até aí tudo bem. Só que, é preciso dizer claramente, não são apenas um grupo da sociedade civil. Apenas integram gestores e empresários. São um grupo de pressão. Um grupo de interesses. Mas não é isso, normal? Claro que sim, o problema é que adoptaram a interessante táctica do discurso suprapartidário e suprapolítico. Não querem fazer parte de nenhum governo, mas as suas propostas são “fundamentais para o desenvolvimento do país. E quais são os supostos interesses do país? Está-se mesmo a adivinhar não? Por trás de palavras bonitas como educação, justiça e mais e melhor emprego lá vêm as propostas concretas:

"Um sistema fiscal competitivo, transparente e minimizador da evasão fiscal".
Dizendo de forma simples: reduzir os impostos (esta escrito claramente nas 7 propostas genéricas). Não será difícil adivinhar que impostos querem estes empresários ver reduzidos.


"A afirmação de Portugal tem de ser feita pela positiva no contexto de um mundo global de mercados abertos em concorrência não cedendo a tentação fácil do proteccionismo.
(declaração de Alcântara, Abril 2004). "

Querem menos impostos, mas não querem um estado proteccionista. Pode parecer uma contradição, mas não é. O proteccionismo a que querem eliminar é o tal que “dá um falsa sensação de segurança ao cidadãos” . Traduzindo: Querem flexibilização do mercado de trabalho

Às vezes lá se descaem e esquecem o tal discurso “do que é fundamental para o país”:

O papel de gestores e empresários é de internamente nas suas empresas e instituições se empenharem na melhoria da respectiva gestão e de externamente pressionarem para que as condições de enquadramento sejam alteradas, nomeadamente quanto à criação de condições favoráveis à atracção consolidação e rentabilização dos investimentos e activos físicos e humanos de forma a garantir maior criação de riqueza. (…)

Mas depois lá continuam com o seu discurso mais habitual e então todos aqueles que criticam as suas propostas são pessoas e grupos "resistentes à mudança", porque ou herdaram uma "cultura de estado novo" ou "tabus e mitos do pós-25 de Abril”.

Há uns tempos atrás citei Taguieff .
Agora cito Chomsky:

Como foi possível à Europa e aos que escaparam ao seu domínio serem bem-sucedidos no que respeita ao desenvolvimento? (…) Pela radical violação da doutrina aprovada do livre mercado. Esta conclusão é válida desde a Inglaterra até as regiões hoje maoir crescimento situadas no sudoeste asiático e seguramente incluindo os Estados Unidos, o campeão do proteccionismo desde as suas origens. ( in Neoliberalismo e Ordem Global - Crítica do Lucro)

Que a doutrina do livre mercado seja algo para ser adoptado pelos outros é coisa que não é novidade para os empresários e líderes Americanos, Ingleses e Japoneses. Mas para os empresários Portugueses é. Ou então.... . Voltarei a este assunto.

descansando os olhos


Reflection in a Mirror. Rodrigo Moynihan, 1986 Posted by Hello


Miles Beyond by Paul Tingen: O livro que aborda a(s) fase(s) electrica(s) da música de Miles Davis.

Tingen examines Miles's always turbulent but wildly creative relationship with Teo Macero, his producer at Columbia Records. Tingen can sometimes be at once presumptuous and contradictory, summarily declaring, for instance, that a recording should have been radically trimmed even after repeatedly praising Miles's knack for minimalist masterpieces. Nevertheless, Tingen has written a lucid, detailed and illuminating study of a generally misunderstood, often critically dismissed period in the creative life of one of this country's greatest musical innovators. The book also contains an extensive musician list, discography, bibliography and sessionology Posted by Hello

Debates e Compromissos

Acabo de ver o debate na SIC Notícias.
Coisa espantosa, a insistência dos senhores deputados Guilherme Silva e Nuno Melo em acenar com o "Papão da esquerda". Não consigo perceber como é que este discurso- de que o PS se não tiver maioria absoluta vai-se aliar ao Bloco- pode ser bom para a direita. A meu ver apenas serve para reforçar a votação no PS, para que este tenha a tal maioria absoluta. Mas mesmo que assim não fosse, alguém ainda tem medo do papão da comunista? Estamos nos tempos do prec? da guerra fria? Guilherme Silva ainda tem a desculpa da idade, mas Nuno Melo... enfim, Nuno Melo tem como ídolo Paulo Portas.
O que estes senhores não percebem (ou então percebem, mas finjem que não) é que não será sequer por ideias políticas ou ideológias que vão perder. Vão perder por uma questão de decência. Porque desprestigiaram e abusaram das instituições e porque o seu líder Santana Lopes não é (nem é capaz sequer de interpretar como Portas chegou a conseguir) uma fígura de Estado.

Hackers no Weblog.com.pt

Quebras de serviço
O sistema weblog.com.pt esteve em baixo por algumas horas, entre as 17:30 e as 20:15 de hoje, dia 13. Está em curso uma investigação para apurar o porquê, sendo certo que o subsistema de correio electrónico vai ficar parado mais algum tempo. Isto porque um dos servidores da pauloquerido.com foi hackado, ou infiltrado por hackers esta tarde, por volta das 15:45. Não temos mais informação neste momento. O serviço dos blogues não deverá sofrer mais danos, excepto no caso do correio electrónico (que só deverá estar em pleno de madrugada), para o qual pedimos a vossa compreensão. Afectada é a criação de novos blogues, que fica por isso suspensa até se esclarecer a ocorrência.Publicado por pTd at dezembro 13, 2004 08:28 PM


Finalmente uma razão para sentir-me sortudo por usar o Blogspot.

14.12.04

Sobre Dhlakama e as eleições em Moçambique.

Houve irregularidades? Provavelmente. Por aquilo que foi noticiado antes das eleições (ver link ) era previsível que houvesse. Agora, não sei é se poderá chegar ao ponto de pensar que elas foram intencionalmente fraudulentas. Que tenha existido a tal “cabala” ( finalmente usei esta palavra) para prejudicar Dhlakama e a sua Renamo é coisa que tenho algumas dúvidas. Não porque ache que a Frelimo não seja capaz de o fazer, mas sobretudo porque, creio, que não precisou. Afonso Dhlakama, um homem obcecado em ser presidente, derrotou-se a si próprio e ao seu partido.

Sobre Dhlakama há aliás algumas coisas que não posso deixar de dizer:

Primeiro, não me esqueço que em 94, depois das primeiras eleições moçambicanas, Dhlakama declarou que elas eram fraudulentas, apesar de todos os observadores internacionais terem dito que duma forma geral elas tinham sido “livres e justas”.

O auto-proclamado “libertador” e “democrata” estava disposto a seguir o exemplo de Savimbi em Angola e avançar para uma nova guerra, não fosse o facto da comunidade internacional estar, fruto do tal exemplo Angolano, de sobreaviso e ter conseguido demovê-lo.

Mesmo agora “Dhlakama ainda insiste que ganhou as eleições presidenciais em 1994 e 1999, convencido que “há gente de má fé que roubam meus votos”. (Publico 1/12/2004)

Mesmo nestas eleições Dhlakama foi logo avisando que se perdesse seria porque houve fraude. ( ao jeito Savimbistico lá está).

Nos últimos dias tem-se multiplicado em declarações que mostram bem o “grande democrata” que ele é.

Desde dizer que Chissano não queria que houvesse alternância de poder, e sendo assim, propunha que negociassem alguma forma de partilha desse mesmo poder (ouvi na SIC).
Até propor que Chissano se mantivesse mais uma “temporada” no poder. Percebe-se: Dhlakama aceita a custo perder o poder para Chissano, agora perder para outro, é a humilhação total. Ainda por cima sendo esse outro o tal que “precisa de 15 anos para chegar ao seu meu nível]
Ao que parece agora descarrilou totalmente e entrou na paranóia de que existe um plano para que fosse assassinado.

Segundo o Publico:

É raro encontrar em Maputo um dirigente da Renamo que aceite falar do seu líder, Afonso Dhlakama. Como para quase tudo, precisam de uma autorização do chefe. Dizem que é por uma questão de respeito, e não por falta de autonomia ou receio. Mas as recentes dissensões ou a expulsão de dirigentes, como Raul Domingos (que também disputa estas eleições) alimentam histórias de desconfianças internas.
(...)Intocável aos olhos dos seus colaboradores, a figura do "presidente" - 25 anos depois de ter assumido a liderança - confunde-se com a própria imagem do partido


Não se conhecem alternativas a Dhlakama e o discurso partidário é muito sustentado no culto da personalidade do líder. Os colegas admiram a coragem, a capacidade de ouvir e de tomar decisões do chefe
(...)
Em privado, porém, pessoas dentro e fora da Renamo criticam o poder autoritário e o estilo excessivamente centralizado de Dhlakama, acusado de falta de espírito democrático.
(...)
Diz-se que será um "ditador" se chegar a Presidente
.

Será provavelmente isto ( ser um ditador) que fez com que o povo Moçambicano não votasse nele. A lógica é semelhante a que se passou em Angola: Ditador por ditador, mais vale ficar-se com aquele que já se conhce e que se sabe do que é capaz.

Não posso deixar de perguntar, que homem é este que depois de duas derrotas eleitorais continua a alimentar a ambição de ser presidente. O normal seria que já se tivesse afastado. O normal seria que o próprio partido encontrasse um mecanismo de renovação. Mas não. O partido confunde-se com o líder. E o líder só tem uma ambição.
Quero ser claro. Não estou a tentar fazer da Frelimo o bom da fita. Não falo sequer sobre Guebuza, sobre o qual sei nada, excepto que dizem não ser flor que se cheire (ver link) e que foi um dos mais autoritários e repressivos Ministros do Interior nos tempos de Samora Machel. Mas parece-me é que Dhlakama não é alternativa. E a Renamo, se quer de facto ser um partido capaz de se apresentar com um projecto e uma ambição política que vá para além da mera chegada ao poder, tem de se renovar e prescindir deste homem. É que Chissano soube perceber e aceitar que o seu tempo político tinha acabado com o segundo mandato. Não tentou nenhuma manobra. Mostrou desapego ao poder. O que só lhe ficou bem. E Dhlakama ?
PS- À proposito de Moçambique: A editora Dom Quixote publicou um antologia da poesia Moçambicana. Chama-se "nunca mais é sábado". Uma boa opção para quem quer dar prendas no natal.

13.12.04

As "misérias" da medicina: Divergências Médicas, por Francisco Teixeira Mota

(...)o pano de fundo que envolve - e, de certo modo, explica - o conflito que opôs duas figuras respeitadas da medicina portuguesa deste século tem que ver com o diagnóstico e tratamento de uma fase crítica da grave doença de Salazar que viria a conduzir à sua morte física, depois de ter mergulhado o país numa crise política que culminaria com a sua substituição no cargo de presidente do Conselho de Ministros. As distintas descrições das circunstâncias de facto que rodearam os acontecimentos, acrescendo à crispação das relações profissionais - e pessoais - entre os professores intervenientes, foram factores determinantes da evolução litigiosa verificada (...)

Eduardo Coelho em seus apontamentos, publicados no defunto "O Jornal" em 1988, afirmava: "O dr. Vasconcelos Marques foi chamado por mim por eu ter feito o diagnóstico de hematoma intracraniano, subdural, e entender que era urgentíssima a intervenção cirúrgica. Fui eu que tive de assumir a responsabilidade do diagnóstico e da intervenção cirúrgica, por os neurocirurgiões presentes não concordarem com o diagnóstico, e fi-lo sempre na qualidade de médico assistente."

Vasconcelos Marques respondeu a tais afirmações com as afirmações que deram origem ao processo judicial que culminou com a decisão do Supremo.

Entre outras coisas afirmava Vasconcelos Marques no seu artigo de resposta, igualmente publicado em "O Jornal": "O depoimento do prof. Eduardo Coelho falseia toda a verdade"; "Em 5 de Setembro disse-me que não se tratava de qualquer urgência, era um doente que estava até muito bem"; "A 6 de Setembro, à tarde, disse-me que o dr. Salazar estava perfeitamente bem, tinha dado uma queda mas que tudo se resolvera"; "A partir desse momento só havia uma pessoa responsável - eu. Não tenho culpa que o sr. prof. Eduardo Coelho tenha chegado à idade a que chegou sem compreender que o único responsável dum acto cirúrgico é o cirurgião. Não entra na cabeça dum cirurgião digno desse nome ir operar um paciente à responsabilidade de um médico assistente"; "A partir daí começaram a surgir dificuldades por parte do prof. Eduardo Coelho, que entendia que o doente devia voltar para casa apesar de poderem surgir complicações. Eu não tomava a responsabilidade de lhe dar alta antes de, pelo menos, duas semanas"; "Sobre a sua isenção devo lembrar que uma tarde disparou-me '(...) assim que o sr. presidente do Conselho voltar para São Bento vai mandar fazer um Instituto de Cardiologia para mim (...)'"; "Decorridos oito dias (...), Salazar sentiu-se muito mal após o almoço (...) estava em situação desesperada, podendo morrer a qualquer momento. Dizem-me que o prof. Eduardo Coelho descreveu a Salazar a operação feita, seguramente com a perfeição que seria de esperar na descrição duma intervenção neurocirúrgica feita por um especialista em cardiologia"; "Se tenho aceite a sugestão do prof. Eduardo Coelho de ele ir para São Bento ao 4º dia de operado tinha morrido".

Ler Tudo

[Eis um episódio da história da medicina portuguesa, que seria um "tesouro" nas mãos de um Fernando Namora]

Com o Pé no Forró


O compositor e guitarrista Toninho Horta lançou o seu novo CD Com o Pé no Forró, feito em parceria com o compositor Felipe Cordeiro. Um disco que traz uma mistura de ritmos que variam do xote ao baião, com uma subtil sofisticação de jazz e recheado de harmonias e arranjos elaborados.
Com o Pé no Forró tem participações especiais de Dominguinhos, Elba Ramalho, Fagner, Chico Pessoa, Miguel Cordeiro, Paulo Viana, Liv de Moraes e Thaís Nara, entre outros. Diferente de tudo que o músico já produziu em seus 30 e muitos anos de carreira, esse CD possui um repertório quase todo inédito, com composições próprias e do letrista Felipe Cordeiro.
Texto enviado por Horácio


Estou com alguma curiosidade de ouvir este álbum. Toninho Horta que é um compositor e guitarrista sofisticadíssimo, normalmente é mais dado ao intimismo do que à "coisa" mais ritmada ou dançante. Além disso, os estilos nordestinos (baião, xote, xaxado) são aqueles que, no brasil menos têm sofrido influência das complexas harmonias jazzisticas, ao contrário da bossa nova, do samba, do choro e do estilo mineiro (clube da esquina). Sabendo que Toninho é conhecido como o "rei da harmonia", e que mesmo Pat Metheny tem Toninho como um referencia neste capítulo (há até boatos que Metheny teve aulas de harmonia com Toninho), antecipo que o "Forró" deste disco seja "outra coisa".
O problema é que este deve ser um disco difícil de cá chegar. Posted by Hello
PS- um dia destes tenho de falar mais um pouco sobre o grande Toninho Horta

lavatório

Não digas a verdade
Não digas a ninguém
Esconde-a
E esconde-te de ti mesmo

Mudo, hás-de prosperar
Como prospera o vinho
Na adega escura
Se fizeres o contrário
Perseguir-te-ão até a morte

Esconde o teu amor
Lava as tuas mãos
Segue o caminho vão
E esconde o que te dói

Vai, voa, lacrimeja ao vento
Mas não mostres o caminho
Nem digas a verdade



por
Willie Mays

12.12.04

Sobre a editora Maianga

A editora brasileira Maianga ( a mesma que, no brasil, tem editado por exemplo Elza Soares, Jussara Silveira e José Miguel Wisnik) merece uma palavra de reconhecimento, pela forma como tem potenciado a produção musical (e não só) em Angola. Construiu de base um estúdio de gravação em Luanda (onde só havia o "empoeirado" estúdio da radio nacional, e o estúdio de Eduardo Paim) e entre 2003 e 2004 produziu (com qualidade) vários álbuns entre os quais dois de Paulo Flores, um ( o primeiro) de Carlitos Vieira Dias, o projecto Quintal do semba ( em cd e dvd) e ainda o álbum de estreia de Wysa, um novo e talentoso cantor que canta (e isto também é novidade) em kikongo.

Também, à maianga se deve o intercâmbio que se iniciou entre músicos angolanos e músicos brasileiros entre os quais os renomados Jaques Moremlembaum e Serginho "Trombone". Acredito que hoje, Moremlembaum consiga identificar, sem grandes dificuldades, ritmos angolanos como semba, rebita e o kilapanga.

Que continuem assim, é o que se deseja.

Maianga

Aqui alguns textos do site da editora maianga:
A criação de uma estrutura fixa em Luanda, concretizada em 2003, surgiu como resultado do vigoroso
intercâmbio artístico entre Brasil e Angola promovido pela Maianga. A intenção é estabelecer neste país um novo pólo de produção cultural, capaz de projetar as diversas manifestações culturais angolanas, nomeadamente a música e a literatura, para além das suas fronteiras.
Além de investir no fortalecimento do mercado fonográfico, a Maianga adotou em Angola o mesmo perfil multimídia que caracteriza a sua atuação no Brasil (...)
A coordenação da Maianga Angola está a cargo do próprio diretor-presidente da empresa, Sérgio Guerra, que há seis anos desenvolve atividades na área de comunicação do país e é autor de três livros de fotografia sobre o cotidiano do seu povo.

O estúdio de gravação da Maianga Angola está equipado com o sistema Pro Tools HDZ 5.3.1, mesa de até 120 canais, periféricos de última geração e todos os instrumentos musicais necessários à realização dos seus projetos fonográficos.
O primeiro projeto, em 2003, foi a gravação do show Quintal do Semba, que uniu alguns dos melhores músicos do país, engajados na preservação do semba, um dos mais tradicionais ritmos produzidos em Angola. O resultado pode ser conferido em CD e no DVD, que, além do show ao vivo, traz ainda um documentário sobre a história deste ritmo angolano, totalmente legendado em inglês e francês.
Em seguida, a Maianga Angola produziu o CD Xé Povo, de Paulo Flores, artista angolano que goza de grande popularidade em sua terra. Seu repertório é permeado por temas que tratam do cotidiano luandense, dos males da guerra, dos valores morais angolanos, do amor, da esperança e da beleza, entre eles o clássico É doce morrer no mar, de Dorival Caymmi. Em 2004, dois grandes projetos já se acham em fase de mixagem para lançamento no segundo semestre: o álbum de Carlitos Vieira Dias, grande referência da música de Angola, que entretanto grava seu primeiro trabalho autoral, e o CD / DVD de Paulo Flores ao vivo. Neste projeto, que registra o show do artista no Cine Karl Marx, a Maianga explicitou toda a filosofia de intercâmbio cultural que norteia seus projetos, quando reuniu no palco grandes expressões da música angolana, brasileira, portuguesa e cabo-verdiana. Nomes como Os Kituxi, Banda Maravilha e Dog Murras, de Angola, o cabo-verdiano Tito Paris, João Ferreira e Ciro Bertinho, de Portugal, e os renomados músicos Jaques Morelembaum, Sérgio Trombone, Joatan Nascimento e Rowney Scott, do Brasil, levaram ao público angolano um belíssimo show, assessorados por uma equipe técnica de Angola e Brasil.

Na área editorial, a Maianga Angola lançará, ainda este ano, em parceria com a Odebrecht, a coleção Biblioteca de Literatura Angolana. Uma publicação com 24 obras de autores diferentes, em dois volumes, agrupados de acordo com o período histórico em que foram escritos: pré-independência e pós-independência do país. A coletânea tem por objetivo difundir a produção literária de Angola, valorizando-a.

(...) foi lançado o livro Parangolá. Fotos de Sérgio Guerra e textos diversos sobre as ‘antenas parabólicas’ que proliferam nos céus de Luanda, o livro dá início à Coleção Angola XXI, que trará olhares específicos sobre temas do cotidiano Luandense.


Primeiro disco de Carlitos Vieira Dias: As Vozes de um Canto


As Vozes de um Canto: Primeiro álbum solo do virtuoso Carlitos Vieira Dias, As Vozes de um Canto registra a importância do artista na história musical angolana. Representante legítimo de toda uma geração de artistas, Carlitos integrou grupos antológicos, tais como Merengues, N´goleiros do Ritmo, e Banda Maravilha. O talento de compositor e instrumentista, lhe rendeu reconhecimento internacional, prestígio e aclamação do público angolano, participação em muitos discos, além do título de Rei da Guitarra Angolana, que ele gentilmente recusa. No seu trabalho de estréia, o veterano Carlitos interpreta composições próprias, do seu pai, Liceu Vieira Dias, e outras de domínio popular adaptadas por ele. Um álbum precioso, cheio de sembas, rebitas e músicas que ele chama de milongos, termo Kimbundo que quer dizer medicamento. Trata-se, portanto, de um remédio para a nostalgia. (texto in www.maianga.com.br) Posted by Hello

Paulo Flores ao Vivo.


Com toda sua obra permeada por temas que tratam do cotidiano luandense, Paulo Flores goza de enorme popularidade em Angola, além de personificar o maior expoente do Semba moderno além das fronteiras do seu país. O álbum duplo Paulo Flores Vivo, produto de três shows gravados ao vivo no Cine Teatro Karl Marx, reafirma o carisma do artista e o seu desejo de levar os temas angolanos para outras partes do mundo. O amadurecimento musical de Paulo Flores é revelado na escolha dos músicos que o acompanham, a exemplo dos brasileiros Jaques Morelembaum, Joatan Nascimento e Rowney Scott, dos portugueses Ciro Bertini e Nanutu*, e do talentoso cabo-verdiano Tito Paris. Associados à excelência dos músicos angolanos como a banda Maravilha e Os Kituxi foram vinte e dois artistas no palco, além de uma estrutura de aproximadamente quarenta pessoas, entre figurinistas, cenógrafos, produtores, técnicos de som, técnicos de luz, diretores e câmeras. (in Maianga edições - www.maianga.com.br) Posted by Hello


* nota:Nanuto é nome artistico do saxofonista angolano também conhecido como Nandinho. Mantive o que penso ser um erro, para não alterar o texto original.

Wyza, Africa yaya


Wyza, cantor angolano de etnia Bakongo mostra o seu ritmo, o Kilapanga. Voz única e musicalidade inata dão vida ao repertório do CD África Yaya, totalmente cantado em kicongo. As canções são de autoria do próprio Wyza que promete revelar ao mundo e até mesmo ao seu próprio país, a riqueza do kilapanga, ritmo próprio da sua etnia. No seu trabalho, Wyza combina tradição e modernidade ao evocar este ritmo ancestral, mesclando-o com elementos da música contemporânea. O resultado é surpreendente e promete encantar o público, tornando-se uma referência da recente produção musical angolana. (texto tirado do site da editora maianga- www.maianga.com.br Posted by Hello