31.8.05

Piso 0

É onde pára o elevador no Iraque quando sobe. Mas ultimamente, já só desce, e hoje desceu pelo menos 640 pisos. A manutenção vai brincando com os botões, ligeiramente aborrecida por ter de esconder as palavras que teimosamente surgem todos os dias na caixa:
Destination: Hell

29.8.05

4 VIPs

1. A vida correu-lhe sempre de feição: não sentia empatia e sorria bem.
2. Nunca quis nada: um dia esqueceu-se de respirar.
3. Cultivou ciosamente as suas rosas, com as portas bem trancadas.
4. Amou-se até fazer Narciso empalidecer.

27.8.05

Cinema:


os filmes que passaram pelo rosto de Rodrigo Leão a cada som, a cada nota, ontem, na Figueira da Foz... e é sempre tão bela a expressão transtornada pela música que conta histórias...
* foto tirada de www.ellinikos.gr

26.8.05

De que somos feitos?

Leu o poema tão devagar e tão intensamente que o mundo se derramou dentro dela. dele.

25.8.05

Fast 'N' Bulbous: rapidez para a bulha, mas com o bolbo ressequido

O “Jazz e Arredores” gostou. Eu não.

Sinceramente esta música envelheceu muito mal. O som da guitarra parecia de um qualquer guitarrista texano tocando no “Ok Curral”; a secção rítmica ( baterista e baixista) tinham a subtileza de um casal de rinocerontes. Também a música não pedia mais. Entre a secção de metais, havia dois razoáveis improvisadores ( saxofonista alto e trombonista), que mantiveram ao longo do concerto um esforço inglório, "afogados" que eram pelo trio roqueiro de guitarra, baixo e bateria, os amantes de "licks" ultrapassados. Ok, faço uma concessão: estes músicos são ainda assim melhores que os U2 ou qualquer outra das 20 bandas top do momento. Mas não são músicos de jazz . Tocam rock, um rock que nos anos 70 era pra “frentex”, um rock talvez complexo. Mas que ainda assim não é jazz. Chamem-lhe qualquer outra coisa.

O que me deixa espantado é a passividade e até mesmo entusiasmo com que alguns dos amantes, divulgadores e críticos os acolheram. Pergunto ao pessoal, em jeito de provocação se objectividade analítica não foi um pouco toldada pela nostalgia. Se assim for, percebe-se: Esta foi uma música de uma época muito especial.


Para uma coisa este concerto serviu, foi mais um contributo para levantar grandes duvidas sobre se podemos continuar a pensar neste festival como um festival de jazz. É verdade que vieram Susie Ibarra, Mark Dresser, Michael Sarin. Mas será que este ainda é um festival de jazz? Parece-me mais um talvez um festival de música(s) improvisada(s) e de improvisadores. É também um festival de muita nostalgia por vanguardas de há 30 ou quarenta anos atrás. Ainda assim, pode uma festival de jazz que já acolheu músicos como Elvin Jones, Chico Freeman, Roy Hargrove, Bobby Hutcherson, John Scofield, Joe Lovano, Dave Holland, Wadada Leo Smith, Jack De Johnette, encerrar com um grupo tocando a musica Sub-Zappiana de Captain Beefheart? É caso par perguntar onde está o Jazz, onde está a “Vanguarda” e até mesmo, onde está a improvisação. No concerto dos Fast´N´Bulbous não ouvi nenhuma das três.

21.8.05

Arroz e Feijão

Ninguém, mas ninguém, cozinha os "moros y cristianos" cubanos tão bem como os Mamborama! Provem:
http://www.mamborama.com/mp3/hifi/mambo/08-moros_y_cristianos.m3u

19.8.05

Paris

As ruas em St.-Germain-des-Prés
O jardim pequeno em frente à Sorbonne
A kora e a voz do Mali a acompanhar o mafe boeuf
O ritmo e o calor dentro do Wagg num domingo à noite
O verde fresco dos Jardins du Luxembourg
O Julius, a Maria, o Emmanuel
Os túmulos brancos do Pantheon
A milonga encenada no Théatre de la Bastille
O pêndulo de Foucault a desafiar as certezas dos sentidos
O zouk a bordo e já não se sabe se a margem é a rive gauche ou a rive droite
E Lucien Lévy-Dhurmer sozinho de olhares no Musée d'Orsay:


Não sei quanto tempo me fez parar mas ainda lá estou

12.8.05


Tons de Tom

Isso virou um “jazz” danado...

Almir Chediak-
Na sua formação quais eram as músicas que você gostava mais?

Tom Jobim -
Vamos pela ordem. No terreno popular, os músicos brasileiros que já citamos [ Ary Barroso, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Garoto, Custódio Mesquita, Noel Rosa, José Maria de Abreu, Lamartine Babo, Ismael Silva, o Wilson Batista, Ataulfo Alves, João de Barro, Bororó].

No terreno erudito, o Villa-Lobos, Debussy, , Ravel, Bach, Beethoven, etc. Mas Villa-Lobos e Debussy são influências profundas na minha cabeça.

Ao Jazz, ao verdadeiro jazz não tive muito acesso. O que a gente ouvia aqui não era o jazz. Eram aquelas orquestras norte-americanas. O negócio do jazz era para coleccionador, para um cara rico, playboy coisa assim. Não sou um profundo conhecedor de jazz. Depois eu vi que os puristas daqui diziam que a Bossa Nova era "em cima" do jazz. Isso virou um “jazz” danado.

Quando esse pessoal dizia que a harmonia da Bossa Nova era americana, eu achava engraçado porque essa mesma harmonia já estava em Debussy. Não era americana coisa nenhuma. Chamar ao acorde de nona de uma invenção americana é um absurdo. Esses acordes de décima primeira, décima terceira, alteradas com tensões, com adendos, com notas acrescentadas, isso aí, você não pode chamar de americano. É americano do Norte, mas é americano do Sul também.

O americano pegou a Bossa Nova porque achou interessante. Se fosse uma cópia do jazz não interessaria. Cópia do jazz eles estão cansados de conhecer. Tem jazz sueco, jazz francês, jazz alemão – Alemão está cheio de jazz.

Depois passou-se a chamar jazz a tudo o que balança. Ora o que balança está nos Estados Unidos, em Cuba e Brasil. Isso é que balança. O resto vai de valsa, com os devidos respeitos para os austríacos.

Essa coisa do samba é por aqui: Brasil, Cuba – e todo o Caribe naturalmente – e os Estados Unidos. É claro, tem o Peru, mas ali é negócio de índio, é outra influência. Tem ritmos interessantes, como tem no Chile, no México, etc, mas não é a essência que nós temos – um negócio negro com um negócio branco.

É um problema de nomenclatura. É latin jazz, brazilian jazz, daqui a pouco a gente não sabe do que está falando. Se jazz fosse tudo o que balança, a música brasileira seria puro jazz. É preciso livrar o Brasil desses esquemas que acabaram inventando.

Eu enfrentei preconceitos enormes. Tocava uma nona e diziam que “o Tom toca be-bop”. Diziam que o [João] Donato era be-bopeiro, veja só. A gente tocava uma quarta aumentada, décima primeira e aparecia logo aquele cara para dizer : “olha aí. É be-bopeiro”. Isso vem naturalmente do facto de o Brasil ser um país de poucos pianos. A pessoa tinha poucas chances de tocar esses acordes, até porque, no violão, vocês precisa completar esses acordes com o cavaquinho. Se você quiser complicar ou ter muitas segundas juntas na parte harmónica, vai ter que fazer com dois violões. Ou inventar, como faz o Egberto Gismonti, que bota mais cordas no violão.

- Songbook Tom Jobim, 2º Volume, Lumiar Editora

10.8.05

o boneco amarelo, na estrada de Catete, a que todos dizem herói

Vivo há três dias, há três dias que procuro por um herói neste mundo de Catete. Encontrei-o num pequeno boneco amarelo, no chão, na estrada de Catete. A estrada de Catete leva-nos à Catete, terra dos catetes. Digo “leva-nos”, pelo facto de não me encontrar em Catete, mas entre eles, os catetes. Acredito veemente que eles não sejam todos iguais, mas que de certeza possuem características muito semelhantes, que tornam-nos catetes de um ou outro modo.

Foi à primeira vista que decidi que aquele boneco seria o herói por quem eu havia três dias ansiara. Era um boneco amarelo, de cabelo raso, grisalho, meio à escovinha; de estatura razoável, estreito, magro, mas não de aspecto pálido, mesmo porque no seu aspecto físico ressaltava o porte atlético de um homem confiante e triunfante. Vestia-se de modo comum a um homem comum, com uma ínfima dissemelhança; vestia uma batina.

Sinto dó à monstruosidade que é a redução de um homem e os seus feitos a um objecto estático, a uma estátua, e não valem sequer os seus atributos; seja ela feita em mármore, vidro, plástico ou madeira, e ser adorado como se adoram os santos nas igrejas. Uma estátua é como o cadáver embalsamado de um homem, exposto na vitrina de uma casa mortuária, como que a forma mais inteligente do proprietário na atracção de clientes. De qualquer modo, é evidente que os homens que não nascem heróis – não acredito em heróis à nascença – e que se tornam postumamente heróis, possuem em vida um perfil idêntico ao daqueles que tombam na controvérsia de uma ideologia do tamanho da sua insignificância, que a história regista e apresenta nos seus sacro arquivos.

Sem refúgio a qualquer tipo de sensação de responsabilidade ao que reduziu aquele ente no objecto amarelo daquele boneco pequeno, deixei-me levar pela sua aparência e no que nele havia de insignificante, a sua insignificância, aliado ao facto de o único herói de Catete poder hoje ser visto como um objecto imaculado, erguido sobre um monte de pedra. Imortalizado da maneira mais fria. Derrubado pela angústia do destino.




por Willie Mays